domingo, 19 de janeiro de 2014

MARIA FORMIGUEIRA



A manhã estava nublada e muito fria por causa do vento e de uma fina garoa que caía bucolicamente sobre a cidadezinha. Era inicio do inverno. Poucas pessoas caminhavam vagarosamente e bem agasalhadas pelas ruas. O relógio da Igreja marcava 6 horas da manhã.

A rua principal, Santo Antonio, de paralelepípedos, toda escorregadia devido àquela fina garoa que caia de mansinho. Era um digno espetáculo observar aquela cena tão romântica:

... As jardineiras nos alpendres das casas todas molhadinhas e as folhas das plantas pareciam encolher-se de frio que até parecia se poder ouvir suas exclamações ora de contentamento e agradecimento por estarem sendo abençoadamente regadas pela natureza, ora porque estava bastante frio mesmo... brrrrrrr !!!

A carrocinha que trazia leite e produtos da fazenda – frutas, legumes e verduras, subia chorosa a ladeira e Seu Manoel, o leiteiro, bradava gentilmente com Malhado:

- Ôa, ... ôa Malhado ! Vamos amigão, temos ainda que entregar todo leite e voltar logo pra casa! Ôa, Malhado... vamos !

Malhado era um cavalo já meio cansado de idade e de trabalho e puxava todos os dias aquela carrocinha silenciosamente. O pavimento da rua, de pedras, todo escorregadio, obrigava-o a um esforço ainda maior, mas, mesmo assim, ele continuava subindo a ladeira silenciosamente.

- Bom dia, Seu Manoel !
- Bom dia, Maria Formigueira! Você não está com frio? Está aí toda descalça e sem agasalho !
- É, Seu Manoel ... !

Seu Manoel pegou logo um saco vazio de feijão, todo em tramas grossas de algodão e ofereceu a Maria Formigueira que tremia de frio, com uma saia tão fina e uma blusinha toda rasgada. Ela, rapidamente colocou sobre os ombros e num sorriso tímido agradeceu:

- Que Deus lhe pague, muito obrigada !

Ninguém conhecia o passado de Maria Formigueira, quem era e de onde teria vindo. Ela era uma negrinha franzina, cabelos curtos, dentes maltratados, pés descalços todo machucados, andarilha pela cidade à procura de um prato de comida já que ninguém tinha coragem de perguntar sobre suas necessidades e tentar oferecer-lhe um trabalho.

Era muito popular porque invariavelmente estava embriagada.

Mas, chamava muito a atenção, entre tantas outras coisas, que ela até sabia ler e escrever, embora com muita dificuldade, pois era de se esperar que naquele estado fosse totalmente analfabeta.

Ela carregava sempre uma pedrinha e, quando podia, fazia uma pequena oração e em seguida escondia a pedrinha embaixo de algum buraco ou tijolo que encontrava por onde passava.

Ninguém entendia o que queriam dizer aquelas pedrinhas escondidas.

- Olha lá aquela macumbeira de novo ... ! Deve estar jogando praga em cima de alguém... Essa negrinha é um perigo pra essa cidade, alguém tem que tomar uma providência e mandá-la embora daqui ! Só pode ser macumba, ela colocou mandinga contra alguma ou algumas pessoas embaixo daquela pedra... eita “bicho do mato” !

Assim, muitas pessoas sempre pensavam e diziam sobre ela.

Maria Formigueira continuou descendo a ladeira até chegar à ponte do riacho que dividia a cidade. Ficou lá olhando demoradamente, gesticulando e falando sozinha. Devia estar, como pensavam as pessoas sobre ela, fazendo algum tipo de prece em benefício ou malefício de alguém.

Foi mais adiante e lavou seu rosto naquelas águas geladas que desciam na corredeira e depois se espreguiçou, molhou novamente o rosto, olhou ao redor, em silêncio, balançou a cabeça, sorriu... e começou a perambular... até chegar à casa de uma senhora, idosa, que a acolheu com um largo sorriso:

- Bom dia, Maria Formigueira! Como você está, minha filha? Aí nessa garoa, toda molhada, ensopada, vai pegar uma pneumonia. Entra logo que vou preparar um leitinho quente com café e um pãozinho com manteiga e umas roupas pra você trocar !

Ela olhou Dona Aparecida com lágrimas nos olhos, entrou na casa em silêncio, tomou um banho bem quentinho e colocou roupas limpas e secas que a Senhora havia separado pra ela.

- Oi, Dona Aparecida, a Senhora não precisa se preocupar comigo. Estou bem! A Senhora é uma Santa de pessoa e Deus vai sempre olhar pela Senhora.
- Minha filha, você precisa descansar... fica aí andando pela cidade... E veja se não toma mais essa bebida que está acabando com você... Você ainda é tão nova, precisa reagir. Confia em Deus que sua vida vai melhorar !
- Ah, Dona Aparecida,... a Senhora me lembra minha mãe... coitadinha que já está lá no Céu. Ela era tão boazinha comigo, mas uma doença levou-a embora tão cedo e eu fiquei sozinha nesse mundo. Não sei quem é meu pai...
- Minha filha, você não está sozinha. Tem muita gente que gosta de você. Toma logo esse lanchinho que preparei e depois vai lá no quartinho dormir um pouco que você vai ficar bem !

Ela olhou bem Dona Aparecida, em lágrimas de felicidade... comeu e bebeu com muita vontade e depois foi dormir.

À tardinha, ela saiu da casa e novamente, como fazia todos os dias, começou a perambular pela cidade, parando em cada vitrine de loja para olhar os brinquedos, as roupas, as novidades... sempre em silêncio. Pegou uma pedrinha e fez uma oração, como habitual, foi até uma árvore da calçada e, colocou-a junto as raízes.

As pessoas olhavam intrigadas e, já sabendo que ela havia passado o dia em casa de Dona Aparecida, imaginaram logo que fosse alguma praga contra aquela boa senhora.

Com uma varinha, deslocaram a pedra, sem colocar as mãos e lá nada estava escrito !!!. O que seria isso? Em todo lugar havia uma pedrinha assim !.

A noite começava a dar seus ares e, com ela, o frio aumentava e a garoa continuava. Maria Formigueira entrou num boteco e, mesmo sem pedir nada, o balconista encheu um copo de cachaça e entregou a ela.

Ela olhou fixamente para o balconista, seus olhos ficaram mareados, olhou para o copo, olhou para as pessoas que assistiam ironicamente em silêncio e bebeu todo o conteúdo do copo. Em seguida mais outro e mais outro... até não saber mais onde estava ou quem era ... e foi saindo cambaleando pelas ruas sob aquela garoa que já se fazia mais forte.

Ao descer novamente aquela ladeira da rua principal, enquanto as pessoas do boteco observavam sua caminhada, ela deparou-se com um vulto escuro na esquina e, de tão embriagada que estava, começou a conversar com ele, sem perceber que era apenas um poste de ferro, de energia elétrica:

- Oi meu neguinho,... só você que pode me entender: minha mãe morreu e eu estou aqui nesse mundo vagando sem saber pra onde ir... nem sei quem é meu pai, não tenho irmãos, não tenho família, ... por onde vou todos me olham com medo...

O poste ali parado, nada respondia.

- Eu estava com fome e me deram pinga. Com esse frio... você me desculpa, viu neguinho... tem muita gente boa nesse mundo, mas tem gente que não está dentro da gente pra saber o nosso sofrimento...

O poste ali parado continuava sem responder

- Dona Aparecida, uma mulher muito boa, uma Santa de pessoa, me deu de comer, de beber e até me deixou tomar banho e me deu essas roupas aqui... que agora já estão todas molhadas de novo. Mas eu não quero atrapalhar a vida de ninguém não, viu meu neguinho. Só você que pode me entender porque você também é um neguinho, como eu, e deve entender como são essas coisas.

- Vou colocar de novo essa pedrinha aqui lá embaixo daquele banquinho ... você fica aí de olho e não deixa ninguém pegar, viu? Eu tenho que deixar essas lembrancinhas ... Mas você só fica aí parado, meu neguinho? O gato comeu a sua língua? Vem cá e me dá um abraço que eu vou embora dessa cidade hoje mesmo pra ver se encontro o meu lugar... !

Nesse instante, ainda sem perceber que falava com um poste, ela abriu os braços e abraçou com muita vontade pensando ser algum moço que estava ouvindo sua história.

O poste tinha um fio descascado e, devido ainda mais à chuva, quando Maria Formigueira o abraçou houve uma descarga elétrica na coitada que a jogou deitada de costas no chão, toda dolorida e assustada, demorando alguns minutos pra se refazer.

- Oi meu neguinho ! Até você me maltrata? Minha mãe foi embora, não tenho mais ninguém nessa vida... e você me dá um coice desse tamanho? O que eu fiz de mal pra você ?

Ela desceu a ladeira desconsolada, às lagrimas e soluços e foi se deitar em um sofázinho de vime que havia na varanda de uma casa. Levantou as almofadas e colocou várias pedrinhas e dormiu um sono profundo !

Pela manhã, os cachorros da casa latiam sem parar.

Seu João, o dono da casa, assustado, foi logo ver o que estava acontecendo e quando abriu a porta da sala que dava para o alpendre viu aquela negrinha lá dormindo profundamente sem se mexer...

Reconheceu-a e aproximou-se dela com cuidado. Olhou-a, colocou sua mão sobre a testa de Maria Formigueira, olhou sua esposa que também assistia e disse:

- É a Maria Formigueira! Ela morreu dormindo aqui, como uma anjinha, coitada. E espalhou todas essas pedrinhas...

A cidade toda ficou logo sabendo do acontecimento. Chamaram o padre que imediatamente mandou preparar um velório com muito respeito àquela pobre criatura. Ninguém entendia o porquê de tanto carinho com ela e, então, o padre disse:

- Essa pobre criatura estava perdida. Vinha muitas vezes à Igreja rezar pela memória de sua mãe e também pela saúde e paz de todos os moradores desta cidade. Ela nunca fez mal a ninguém, mas sim orou todos os dias por todos e agora ela deve estar lá no céu nos braços de sua querida mãe.

Todos que assistiam àquele velório ficaram em silêncio envergonhados e com remorso de seus pensamentos sobre aquela moça e, emocionados, muitos oravam com lágrimas nos olhos desejando paz a Maria Formigueira e perdão para seus próprios pecados da indiferença e do preconceito.

O Delegado aproximou-se do padre e não resistiu a perguntar como porta-voz de todos os moradores também inquietos sobre o que seria o mistério de Maria Formigueira:

- Perdão Senhor Padre, já que o Senhor conhecia bem a Maria Formigueira, poderia nos dizer por que é que ela sempre colocava uma pedrinha escondida em algum lugar ? Todos sempre imaginaram que isso fosse algum tipo de magia contra alguma pessoa...

O Padre olhou bem para o Delegado e para todos que ficaram em silêncio esperando sua resposta:

- Meus filhos, essa mocinha amava a todos dessa cidade, apesar de sua vida desregrada. Ela perdeu sua mãe muito cedo. Aprendeu a escrever e pouco escrevia, mas, ela fez uma promessa, que eu só poderia revelar após sua morte.

- Eu sempre lia a Bíblia para ela ,explicando o significado de cada passagem. Um dia, li sobre Pedro 2:4-8, onde Pedro usa a imagem da pedra para descrever a comunidade Cristã, como sendo a Pedra Principal na construção de nossas vidas. Ela entendeu então que Deus, O Pai, é o Gande Construtor e Jesus, O Filho, O Instrumento, ou seja, a Pedra Principal para a construção e salvação de nossas vidas.

- Assim, Maria Formigueira fez uma promessa que durante todos os dias de sua vida iria depositar uma pedrinha, após uma oração, desejando que Jesus habitasse o coração de todos e protegesse sua querida mãe que havia partido tão cedo para o Céu.

- E ela, todos os dias, independente de sua situação, orou por todos e colocou uma pedrinha rogando a Jesus que iluminasse e guardasse a todos os viventes desta cidade...

- Espero que nesse momento nos juntemos todos em oração para que essa pobre criatura alcance um lugar entre os justos e repouse em paz!

As pessoas atendendo ao chamado do Padre, cabisbaixas, envergonhadas, entreolharam-se e silenciosas voltaram para suas casas  ... !

Muitos anos se passaram...

Ninguém mais se lembra daquela negrinha inocente, humilde e cheia de esperanças chamada Maria Formigueira !

Raul de Abreu
mar / 2008

ONDE ANDARÁ TIQUINHO ?

Durante aqueles tempos, poucas coisas assustavam as pessoas nas cidades: Lendas do Saci-Pererê, da Mula sem cabeça, fantasmas à meia- noite no cemitério, a ventania em noite de lua cheia, chuvas durante a madrugada, ou no máximo, as loucuras de um embriagado que mais falava insanidades do que ameaças às pessoas...


Ah ! ... Também havia Maria Louca. Ela era uma pessoa que ninguém sabia a idade, se nova ou velha, apesar de aparência muito desgastada. Vivia perambulando pela cidade falando sem parar, sozinha e pra si mesma, gesticulando como se estivesse discutindo alguma coisa com alguém... Todos temiam que ela fosse alguma coisa mais que apenas uma mulher louca.

Mas, o que mais assustava mesmo era Tiquinho. Ele era apenas um garoto simples, muito humilde, calado, de olhar sereno e talvez órfão porque ninguém ainda havia conhecido seus pais. 

Era muito estranho e ninguém sabia dizer porquê. Sentia-se um calafrio quando se chegava perto dele...

Não conversava com as pessoas e todos tinham receio de perguntarem alguma coisa a ele, que apenas olhava as pessoas, permanecia calado, porém com um olhar bem sereno, cativo...

Tinha belos olhos azuis, esboçava um sorriso tímido, um perfil delicado e parecia ser muito bondoso. Mas, mesmo assim, todos tinham certo medo...

Poucas vezes era visto pela cidade. Geralmente viam-no na Praça da Igreja observando as copas das árvores e, imediatamente, os pássaros voavam ao seu encontro e pousavam em seus braços, nos ombros, sobre sua cabeça...


Ele apenas sorria e acariciava aquelas criaturas. De repente, com um simples olhar, como se fosse uma ordem, as aves voavam de volta aos lugares de onde tinham saído.

Contam que ele conversava sim com todos os animais que existiam... ! ???

Um dia contaram que viram Tiquinho caminhando pela mata e que lindas borboletas azuis acompanhavam-no enquanto ele seguia por uma pequena trilha... Não só as borboletas, mas também coelhos, esquilos, pássaros, lagartos e até cobras iam com ele por onde ele passava... 

Tudo em silêncio, tudo muito estranho, mas tudo em perfeita harmonia !

Ele foi caminhando,... caminhando,... afastou delicadamente algumas folhagens que atravessavam seu caminho, as quais voltaram em seguida aos seus lugares... Não se sabe como e nem porque, logo em seguida ele com todos aqueles animais nunca mais foi visto ! 

Nem na cidade alguém o viu alguma outra vez !

Isso aconteceu há mais de quarenta anos atrás...

Recentemente eu estava em uma praça da cidade. Muitas árvores, e no meio da praça a temperatura estava fresquinha, embora um dia de calor causticante. Havia também uma fonte protegida por grades metálicas... e na pequena mureta de alvenaria estava sentado um homem de estatura mediana, magro, cabelos castanhos brilhantes, sedosos e com alguns tons grisalhos...

Ele acariciava os pássaros que vinham pousar em seu corpo. De repente, ele voltou seu rosto para mim e deu um sorriso que me fez sentir um calafrio estranho... Ele continuou me olhando e sorrindo... Tinha belos olhos azuis, um olhar carinhoso, um rosto já marcado pelo tempo, mas um ar sereno de quem só transmitia a paz !

Pensei naquele instante:

- Será o Tiquinho ?

Ele levantou-se vagarosamente e foi caminhando fora da praça olhando-me com aquele olhar estranho, mas muito bondoso... e as aves seguiam-no felizes !

Voltei mais vezes àquela praça em vários horários, ... Fui a outras praças, rodei toda cidade a sua procura e não sei onde é que ele foi parar... 

Isso aconteceu somente há apenas duas semanas atrás !

Estranho... ! Quem será aquele homem ? Por onde andará o Tiquinho ?

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Raul Neves Abreu
18 / 12 /2011

VÁ PROS QUINTO DOS INFERNO !

Estava fazendo um frio de “lascá os cano” e pra piorar, estava garoando e era noite. Marquinhos queria ter ido viajar com seus amigos para o acampamento de férias,... "O TÃO ESPERADO ACAMPAMENTO DE FÉRIAS ESCOLARES DE JULHO !!! "

Não foi !

Ele estava com 14 anos de idade, na 8ª série do Primeiro Grau e no domingo seguinte, data de aniversário da cidade, ia acontecer uma grande festa da Igreja: "A FESTA DA PRIMEIRA COMUNHÃO" !

Tradicionalmente os jovens fazem a primeira comunhão com menos de 12 anos de idade. Marquinhos tinha 14 e ainda não tinha feito. Que vergonha !

Seus pais haviam dito ano anterior que se ele não fizesse a primeira comunhão, iria receber um castigo que não era pra esquecer nunca !

Recebeu o castigo e não esqueceu !

O pior de tudo é que seus amigos também não esqueceram e não o pouparam das provocações, lembradas por muitos anos ainda.

Chegado o dia da Confissão ele não sabia ainda o que dizer. Leu o catecismo e tentou decorar os  " Mandamentos ". Eram só 10 Mandamentos. Uma loucura: poderiam ser só 2  ou 3. Mas eram 10 e não ia dar tempo pra decorar.

Todas as crianças naquela cidadezinha católica começavam aulas de catecismo logo que aprendiam a ler e escrever, ou seja, por volta dos 7 anos de idade. Marquinhos era repetente do catecismo por muitos anos porque ele saia de casa para a Igreja, mas ao invés de ir às aulas, ele ia jogar ping-pong no salão da Congregação Irmãos Marianos e seus pais não sabiam.

Apesar de muito novo ele era exímio jogador de ping-pong e invariavelmente ganhava campeonatos até em categorias superiores a sua idade. Seus pais ficavam orgulhosos, gabavam-se disso e acabavam relevando a falta do filho.

Quando ele via a Beata que dava aulas de catecismo, tentava disfarçar e fugir. Mas ela chegava com um sorriso tão angelical diretamente até ele e dizia:

- Marquinhos, meu filho. Você não tem freqüentado as aulinhas de catecismo. Papai do Céu não vai gostar disso. Você está cometendo um pecado. Olha só a Mariazinha que é da sua idade,... ela começou com você e já fez a Primeira Comunhão já faz uns 4 anos !

Marquinhos ficava “p. da vida”. Todo mundo olhava pra ele com ar de provocação quando ele era chamado à atenção. E, para piorar mais ainda, ele ainda tinha que abaixar a cabeça, dizer um contrariado “Sim Senhora” e ainda beijar a mão da Beata e pedir a sua bênção! Era tudo que poderia acontecer pra estragar sua semana.

E estragava toda semana!

Mas, naquela noite, mais ou menos 7 horas da noite, com aquele frio danado, ele foi pra fila das crianças que iriam fazer a confissão para a Primeira Comunhão. Todos pequenos e ele grandão.

Todos olhavam pra ele e ele fazia caretas, mostrava a língua e morria de vergonha: um marmanjo de 14  anos e de calças curtas, com as pernas já cabeludas.

Parecia piada, mas não era !

Ele já estava na fila fazia uns 20 minutos e parecia que aquilo não ia terminar nunca. Na sua frente havia ainda umas 3 crianças, mas,... atrás... ele nem ousou contar porque deveria ter mais de 30. E todos esses cochichando sobre o “marmanjo” na frente que ainda não tinha feito a Primeira Comunhão!

Pegou o caderninho do catecismo e começou a ler. Não entendeu nada. Estava nervoso, com frio e putíssimo da vida! Pensou:

- Tudo bem, que se foda! Eu chego lá e digo que pequei e pronto! Mas,... e se o padre perguntar contra que mandamento? Bem, eu vou então dizer que tive maus pensamentos e tá liquidado o papo, afinal geralmente o Cônego, aquele velhinho é bonzinho e não vai querer fazer perguntas !

Errou!

Não era o Cônego, aquele velhinho bonzinho. Era um padreco metido a besta que tinha acabado de chegar na cidade. Ninguém conhecia o “franguinho”: - cabelinho bem penteado, cara de boy, metido a cantor, um topete tipo “Tony Curtis”... só faltava mascar chiclete e um sotaque que não era típico da cidade. Ele não falava “ pórta abérta, janela tórta, se vinhé chuva ou sór, ninguém simpórta ! ” O malandro falava bonito, devia ter vindo da “capitar”.
O PADRECO
Filho da mãe, quando estava chegando a vez de Marquinhos, saiu do confessionário, olhou bem pra fila, olhou pra cara do Marquinhos com um sorriso irônico do tipo “aí, filho da puta, agora chegou sua vez... vou te fuder!” e saiu apressado lá pro lado da sacristia, onde tinha uma “pórta abérta que não era tórta” que levava ao banheiro.

"Viadinho" (o padréco) devia ter ido dar uma mijada mas demorou tanto que, com certeza, aproveitou também pra dar uma bela cagada, só pra deixar Marquinhos com mais vergonha e mais puto ainda.

... (peço desculpas às Santas Senhoras Beatas, castas, puras e puritanas que estiverem lendo isso aqui, mas o padreco me irritou).

Voltou esfregando as mãos e com um sorriso muito filho da puta! Olhou pra Marquinhos com aquele olhar desmoronador, e só acenou com a mão chamando pra ajoelhar....

E Marquinhos foi: “ajoelhou tem que rezar!”

Padréco perguntou o nome e Marquinhos, deu seu nome, sobrenome e até endereço (ele era detalhista porque não sabia o que dizer).

- E aí, Marquinhos você cometeu algum pecado contra os Mandamentos da Lei de Deus ?
- Sim seu padre. Acho que sim !
- Acha? Mas contra que mandamentos você pecou ?
- Bem,.... eu tive maus pensamentos, falei bobagens....!
- Mas você não sabe dizer contra quais mandamentos? É isso que dá ficar jogando ping-pong quando deveria estudar o catecismo. Diz logo que pecados você cometeu e eu vou lhe ensinar quais são os mandamentos !
- Tá bem. O Sr. quer saber o quê ?
- Desembucha logo malandro, que tem uma fila enorme atrás de você e todos estão rindo porque você é um marmanjo que ainda não fez sua primeira comunhão !
- Então, eu tive maus pensamentos e fiz bobagens !
- Que tipo de bobagens? Você quer dizer que fez “coisas com animais”? por exemplo, galinha, cadelinha, cabritinha, bateu umas punhetinhas ?
- É !
- É? Só isso? E você não fez bobagens com meninas ou meninos ?
- Fiz sim, mas foram só umas três vezes... mas só com meninas !!! ... ah, também teve uma cabritinha !
- Então confessa logo que vou ver se tem perdão !

Marquinhos ficou muito irritado e pensou: "ainda vou dar uma ferrada nesse padreco duma figa"

- Ah !... Outro dia fui lá atrás do quintal da Dindinha, a filha daquele homem e da Dona Lucia, aquela professora e ficamos brincando lá atrás das árvores... eu, ela e a Pitinha que é a filha do,... o Senhor conhece ele e da Dona Tiazinha lá da fazenda... mas aí a mãe dela saiu correndo lá no quintal pra ver o que estava acontecendo eu saí correndo com a roupa na mão e quando fui passar na cerca de arame farpado, me machuquei e meu calção ficou preso e eu tive que correr pelado pra casa !... Mas ninguém me viu não, viu ?
- Bem feito, seu vagabundo! Tem mais pecado, seu malandro ?
- Ah, também fiz bobagens com a minha priminha ,a filha da minha tia Sinhá e do meu tio Zé, que trabalha lá na  Delegacia.. mas o senhor não vai contar pra ele não porque eu não quero ir pra cadeia ... !
- Acabou? Vou pegar logo o " Livrão das Penitências " e você vai ficar o ano todo rezando e ajoelhando no milho pra pagar os seus pecados! Senão eu conto pro seu Tio !

Marquinhos mais puto da vida ainda, vendo a "viola em cacos", decidiu então acabar com o padreco:

- Ah,... quase ia me esquecendo: Outro dia fui brincar de casinha na casa daquela "sua sobrinha" a Aninha, que é a filha do Seu Manoel aquele médico que é o irmão do Senhor, Seu Padre, mas eu não vou mais lá não, viu ? Agora que sei que ela é sua sobrinha... Mas, também teve outros dias que...... !

O Padre, putíssimo da vida nem esperou mais Marquinhos acabar a confissão. Saiu muito bravo do confessionário, todo histérico, desequilibrado, balançando o topete, olhou pra fila enorme que aguardava a vez, assustada com o que estava acontecendo, apontou o dedo para Marquinhos e disse:

- " VÁ PROSQUINTO DOS INFERNO ” , ... " Seu Capetinha " e eu vou te excomungar. Some daqui e não apareça nunca mais !

Marquinhos sem entender o que estava acontecendo e por quê o padre estava tão bravo, levantou vagarosamente e foi “saindo de fininho” sem olhar pra trás praquelas crianças que estavam ainda mais assustadas do que ele e foi embora deixando um rastro de urina por onde passava, tal era o medo que sentia! (apesar dum sorriso irônico muito fdp).

No domingo, dia da Primeira Comunhão, Marquinhos foi pra Igreja e ficou lá atrás bem escondido, olhando pra todos os lados pra saber se o padreco estava lá. Não viu o padreco mas ficou na dúvida se deveria ir ou não ir pegar a hóstia.

E eis que a Beata, com aquele cândido sorriso, chegou até Marquinhos, tomou suas mãos e colocou-as em forma de oração e disse:

- Meu filho,... estou muito orgulhosa de você! Hoje é a sua Primeira Comunhão. Segue a fila e vá receber a bênção de Deus !

Então... ele, como um gato que fez arte e sabe que vai apanhar, seguiu em frente com as mãos em “estado de graça” e recebeu das mãos daquele Santo Padre Italiano que rezava a missa, o perdão eterno através da Hóstia Sagrada  !

... O Padreco nunca mais foi visto na cidade !

... Marquinhos, ... bem, ... Marquinhos tornou-se SANTO ! Agora ele é um Pastor! ... (cuida das ovelhas da igreja)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIOS !



 
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.INSENSATEZ  -  TOM JOBIN
 
Christianne era uma garota muito bonita e admirada por todos os rapazes da cidade.
 
Tinha um jeitinho todo especial de ser – espontânea, natural, dócil, às vezes ingênua, que fazia com que as demais garotas sentissem inveja, receio, ciúmes e, algumas, até ódio.

- Cuidado com seu namorado: Christianne dá em cima de todo mundo, ela gosta de roubar os namorados da gente !
- É, menina, ... fiquei sabendo que o Jorginho brigou com a namorada – a Suely, só por causa da Christianne. Essa menina é perigosa !

Ela estava sempre com um largo sorriso no rosto, onde quer que fosse. Na escola não havia quem pudesse prestar atenção às aulas senão apenas naquela mocinha que ficava sentada nas primeiras fileiras, toda cheia de graça, despreocupada, ... uma verdadeira princesa !

Como tantas outras, também tinha algumas dificuldades em algumas matérias o que motivava comentários daquelas que não desfrutavam de sua amizade:

- Ela é muito bobinha, você viu ? Ela só serve pra ficar se exibindo e assediar os namorados alheios !, ...
- Ela nem sabe escrever direito... Não entendo como os rapazes ficam ali babando... Só pode ser por causa “daquela coisa “ !, ...

As garotas não perdoavam Christianne. A ela era atribuído tudo de ruim que acontecia com seus namorados.

Eu era vice-presidente do Diretório Acadêmico da Escola e dois anos mais velho que Christianne. Também era muito amigo de seu irmão, José Carlos – um rapaz muito educado, sempre bem humorado, simpático e bem quisto por todos.

Eu não conseguia entender porque tanta diferença no trato das pessoas em relação aos dois irmãos – Christianne e José Carlos. Mas pensava que as mulheres eram mais sensíveis que os homens e, por isso, sentiam ciúmes tão infantis por coisas tão bobas:

Christianne era natural e isso atraía os rapazes !

Também notava que o simples fato de fazer parte do Diretório Acadêmico, já fazia com que me transformasse em uma “pessoa especial”, desejado pelas garotas e invejado pelos garotos. Que coisa idiota !

Não sabia bem por quê Christianne estava sempre me procurando. E onde estivesse ela me chamava em voz alta:

- Marcos,... Marcos,... Marcoooooosssssss ......... !

Eu ficava constrangido com aquela demonstração, pois sempre fui muito discreto. E, mais ainda, quando Christianne estava chamando meu nome em voz alta. Sentia muita vergonha. Tive que procurar seu irmão e falar sobre o assunto:

- Zé Carlos, não sei como dizer, mas é uma coisa muito embaraçosa: sua irmã não me deixa em paz. Dá um jeito nela e fala pra ela parar com isso !
- O quê que é isso, garoto ? Você tem medo de mulher ?
- Não é isso, Zé Carlos. Ela é muito chata e vive dando em cima de mim. Eu não gosto disso, é muita baixaria...
- Vai garoto,... você está é com medo da minha irmãzinha... (risos) !

Também não entendia o Zé Carlos. Ele era um bom amigo, mas, quando conversávamos sobre sua irmã, até ele não levava o assunto a sério.

Aquela garota vivia me assediando de tal maneira, que eu nunca percebia como ela era bonita e, menos ainda, que todos os garotos queriam namorar com ela... Confesso que ela me dava “ânsia de vômitos” quando se aproximava de mim.

No cinema, ela sempre estava lá esperando uma chance pra sentar ao meu lado... Nos bailinhos, era ela que vinha me convidar pra dançar,... nas quermesses,... era ela que me mandava tantos correios elegantes,... na escola,... os bilhetinhos com desenhos coloridos dizendo: “ Marcos,... eu te amo !,... na minha casa minha mãe dizendo: “ A sua namoradinha trouxe um docinho pra você ! “.

Eu não podia sair de casa que já encontrava com ela. Ela era a garota mais chata que eu já havia conhecido. Ela não me deixava em paz !

Chegaram as férias escolares de Julho e fui viajar com meus pais para casa de meus avós. Ufa ! Que alívio ficar longe um pouco daquele ambiente que estava me estressando.

Christianne morava com sua avó e tias em nossa cidade. Seus pais moravam em Salvador - Bahia. Ela e José Carlos também foram viajar. Foram para a casa dos pais.

Mês seguinte, Agosto, no primeiro dia de retorno às aulas, estávamos no pátio da escola quando vi Christianne no meio de um grupo de colegas, contando sobre suas férias.

Ela estava toda bronzeada, com uma cor tão bonita que chamava demais a atenção de todos. Imediatamente ela me viu e deu um sorriso costumeiro...

Fiquei ali quieto olhando... E não me incomodei como antes.

Como ela estava bonita ! Eu nunca tinha percebido que ela era tão bonita ! Não sei dizer o que aconteceu,... mas a partir daquele instante comecei a olhar aquela menina com um interesse que jamais havia sentido.

Ela percebeu,... mas continuou lá com suas amigas.

Estranhei. Ela nunca ficou sem chamar o meu nome... O que estava acontecendo ? Fiquei atordoado, parado ali como uma estátua.

Naquela semana minha vida estava mudada: não havia mais o assédio daquela chata ! Fiquei pensando se ela teria se envolvido com algum garoto "porreta da terrinha",... afinal os baianos, inclusive ela e seu irmão, eram conhecidos como muito “liberais e assanhados”...

- Será que Christianne tem um namorado baiano ? Será que ela não gosta mais de mim ?

Uma coisa que nos incomoda muito é alguém ficar nos constrangendo por tanto assédio...

Mas o que mais nos incomoda é a indiferença, quando "ninguém se incomoda em nos incomodar", porque isso dá uma sensação muito esquisita, um sentimento de que não temos mais aquelas qualidades que atraem as pessoas, uma sensação de "vazio", de impotência, e nos faz ficar pensando coisas do tipo:

- Será que estou com algum cheiro mal cheiroso ? Meu desodorante está vencido ? Meu cabelo está feio ? Minha calça está rasgada ? Meu sapato está sujo ? Não sou mais tão bonito ? Tenho cara de babaca ? Será que sou gay ? Será que outro safado chegou primeiro e tomou conta do que é meu ? Não estou mais agradando ? Mas eu sou o máximo ! O que é que está acontecendo ...???

Tantas coisas se passaram pela minha cabeça que quase pirei !

Era uma tarde de Quinta-feira e a temperatura estava amena, pois em Agosto o inverno já começava a dar ares de Primavera... Ah, a Primavera ! As flores coloridas, perfumadas, os pássaros, os sentimentos, canções de amor ... !

Zé Carlos estava no jardim da Igreja principal da cidade conversando com os amigos e contando sobre sua viagem. Eu estava mais interessado em saber o que estava acontecendo com sua irmã... Deixei aquele grupo de amigos e nem sei como dizer, fui até a casa deles.

- Oi Christianne, seu irmão está em casa ?
- Não. Zé Carlos deve estar na pracinha conversando com a turma. Você não foi lá ?
- Não. Eu pensei que ele estava aqui ...
- Não está.
- Ah,... que pena ! Eu queria conversar com ele...
- Quer entrar ?
- Não,... eu queria falar com ele...
- Entra !
- Bem, não sei... Você está bem ?
- Entra ! Vou mostrar as fotos das férias...

Era isso que eu queria mesmo: entrar ali naquela varanda, ficar olhando aquela garota, conversar, ver fotos,... e entender o que estava acontecendo comigo.

Christianne foi até seu quarto, pegou várias fotos e veio rapidinho. Ainda ouvi sua avó perguntando o que ela estava fazendo e ela respondendo que estava conversando com um amigo da escola. Fiquei nervoso, é claro, pois minhas intenções naquele dia estavam muito confusas. Eu não sabia se iria ter ânsia de vômito novamente ou se iria me interessar pela garota.

Ah,... ela estava linda: toda bronzeada, um rosto angelical e ao mesmo tempo insinuante, uma camisetinha azul claro deixando ver o contorno do corpo e os sinais dos seios, uma saia curta colorida, sandálias coloridas... Aquela menina parecia uma Estrela de Cinema ! E eu ali sem conseguir respirar de tanta ansiedade...

- Olha aqui: Meus pais resolveram nos levar até o Rio de Janeiro. Estivemos em várias praias do Rio: Búzios, Angra, Sepetiba, Ipanema, Recreio, Leblon, Copacabana... Ah ! Copacabana como é linda !

Eu nem vi direito as paisagens... Só consegui ver fotos de uma garota linda com biquíni, mostrando um corpo maravilhoso e me deixando muito nervoso. Eu nunca tinha visto uma garota de biquíni ao vivo... e aquela maravilha estava ali perto de mim, com um cheirinho tão gostoso... eu conseguia sentir sua respiração. Aquela situação foi me deixando alucinado...

- Linda !
- Eu ?
- A paisagem. Linda ! Claro, você também está muito bonita nas fotos...
- Ah,... pensei...
- Você é muito linda Christianne...
- Você acha mesmo ? Nunca se interessou por mim...
- Bem,... sabe como são as coisas...
- Eu gosto de você, Marcos... Mas você não quer me namorar...
- Acho que quero sim...
- Quer ?
- Não sei,... acho que sim... mas,... será ... ?

Eu sempre ouvi dizer que Christianne tinha a fama de “destruidora de namoros” e que, para isso, ela assediava os namorados das amigas e até ficava em intimidades com eles... Então, vendo aquelas fotos e tendo aquela garota a menos de um metro de mim, não resisti a um incontrolável desejo de homem e ter aquela mulher em meus braços...

- Sim,... eu quero namorar você sim... mas,...
- Mas o que? Você quer ou não quer ?
- Bem, eu queria...
- O que você queria ? Fala... eu quero saber ... o que você queria ?
- Christianne,... eu queria ver você...
- Você está me vendo...
- É,... mas eu queria ver os seus seios... posso ?
- Não ! isso não !
- Por quê ?
- Não, isso não pode... não faz isso não !
- Mas eu quero... Se você mostrar eu namoro você...
- Não... não pode !
- Mas todo mundo diz que você já mostrou para outros garotos...
- Mentira !
- As meninas da escola vivem falando isso... que você faz coisas com os namorados delas...
- Mentira... Eu nunca fiz nada disso
- Eu ouvi dizer... Fala a verdade..
- Nunca tirei namorado de ninguém ! Elas que não gostam de mim e inventam coisas... Eu sei que elas falam tantas coisas. Mas é tudo inveja, mentira !

- Mostra pra mim, vai... !
- Não,... não posso... Minha avó está em casa,... minhas tias... não posso !
- Mostra senão não namoro você !
- Não... por favor,... não faça isso comigo... eu amo voce !
- Bem, eu vou embora...
- Não,... não vai não... eu te amo ! Mas não faça isso comigo...
- Então mostra... eu quero ver você... estou com muita vontade de ver...

Ela ficou transtornada, desesperada. Parecia que estava sendo violentada contra sua vontade... Olhou toda sem graça, constrangida, com ar de choro e começou a levantar aquela camisetinha... até cobrir o seu rosto e deixar os seios à mostra.

Olhei aqueles seios,... lindos,... pequenos,... rosados,... puros...

- Christianne... Como você é linda !

Ela abaixou a camiseta e mostrava um rosto em lágrimas... Seu soluço provocou-me lágrimas também. Eu não sabia o que fazer, ... comecei a sentir uma dor no peito,... percebi que estava sendo um bandido forçando aquela menina a se submeter a uma “coisa” que nem sei como qualificar de tão baixa quer era e me fazia sentir vergonha do meu ato,... fazia-me sentir um verme nojento que tinha chegado aquele ponto devido aos comentários maldosos que faziam sobre aquela doce garota.

- Christianne,... perdoe-me. Hoje pela manhã, vi você naquele pátio... Depois você não mais falou comigo,... pensei tanta coisa,... que você não me queria mais,.. que já estava namorando alguém na cidade,... aquelas meninas dizendo coisas de você,... minha cabeça ficou tão mal... Esses dias todos eu só pensei em você,... e as suas fotos... Perdoe-me,... eu sou um cachorro mesmo,... perdoe-me...

Ela continuou ali derramando lágrimas, sem nada falar, com vergonha de me olhar...

- Eu nunca me mostrei pra alguém , Só pra você, porque eu amo muito você !
- Perdoe-me,... perdoe-me... perdoe-me... Eu vou fazer de tudo para que você não se sinta mal e que veja que eu não sou assim...

Fui embora desesperado daquela casa. Nunca contei isso pra qualquer pessoa, ao contrário do que todos aqueles garotos certamente teriam feito.

Nos dias seguintes não vi Christianne.

- Zé Carlos, e sua irmã ? Ela não tem vindo à escola...
- Ah, eu acho que ela está gripada... Está lá em casa de cama e chora o dia inteiro...
- Gripada ? Chorando ?
- Não sei. Ela deve estar doente.

Eu sabia : - fui o responsável por tudo aquilo !

Christianne ficou o restante da semana em casa restabelecendo-se daquela violência que pratiquei. Não consegui ficar tranqüilo nem um minuto com medo que ela contasse para sua avó ou tias e essas viessem bater à minha porta. Sei que meus pais iriam me castigar, ... mas,... pior : - "como é que eu pude chegar a aquele ponto" ?

Os dias se passaram e na semana seguinte encontrei Christianne na escola. Tive receio em me aproximar, mas precisava mais uma vez me desculpar...

- Christianne, estou muito mal. Por favor, me perdoe. Faço o que você quiser pra que você me perdoe...
- Marcos,... pensei muito esses dias. Não posso culpá-lo por ter agido daquele jeito. Sei que as meninas vivem inventando a meu respeito... Você não tem culpa,... mas, creia, nunca fiz nada de errado... só você que sabe e espero que não conte o que aconteceu...
- Juro por tudo que há mais sagrado ! Nunca vou comentar... E também quero dizer uma coisa muito importante: descobri que você é a garota que eu gosto e que quero namorar... e não tem nada a ver com o que aconteceu... Quero ser seu namorado de verdade e ter o maior respeito com você...
- Marcos, também quero. Mas, por favor, não me peça mais pra fazer o que fiz aquele dia...

O pátio da escola estava cheio de alunos. Senti que todos nos observavam...

Despedimo-nos com sorrisos e, aliviados, fomos para nossas salas de aulas...

Meu namoro com Christianne durou quase um ano. Durante esse período, muita alegria - lindo, agimos sempre com muito respeito, embora sentíssemos muitos desejos.

Ninguém mais fez comentários maldosos, pois, pela primeira vez, Christianne tinha um namorado e perceberam que havia apenas fantasia na cabeça das pessoas... e, de verdade, ela era apenas uma inocente criatura, educada, gentil, tímida, linda,... por quem as garotas da cidade sentiam muita inveja !.

Christianne voltou a morar com os pais em Salvador quando completou 18 anos de idade. Dizem que lá concluiu Universidade, casou-se e foi morar no exterior. Talvez Portugal, França,... Sei que o pai dela tinha parentes e uma casa em Lisboa...

Hoje, muitos anos depois daqueles dias, estou me lembrando com doçura daquela linda menina.

Por quê será que, às vezes, a gente se deixa levar pelos comentários dos outros, pelas aparências, pelas impressões e acaba injustamente julgando pessoas ? Acho que tudo isso é mesmo uma "questão de princípios" pois, inicialmente, somos "Pedra Bruta" mas nos são dadas muitas oportunidades para irmos aos poucos burilando, polindo as impurezas que nos caracterizam até nos tornarmos como "Pedra Polida" de real valor.

... " C´est la vie ! "

Naquela tarde, aprendi uma grande lição que me acompanhou a vida toda:

- “ aquela doce menina, inocente e pura, somente cedeu aos meus impulsos, com lágrimas, por ter me amado demais ! ”

Nunca vou me esquecer daquele rostinho angelical e daquelas lágrimas ! Que saudade !

Ah... ! Tantos anos se passaram !

Agora estou aqui, emocionado e falando sozinho, nesta rua tão movimentada com tanta gente olhando pra minha cara tão desajeitada, ...

Nem vou me importar com o que possam pensar ! É tamanha a saudade que vou gritar bem alto pra todo mundo ouvir, ... como ela sempre fazia comigo:

- Christianne,.... Christianne... Christianneeeeeeeeeeee ! ...
.
Raul Neves Abreu
22 Fev 2010

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A VIDA TRAZENDO SURPRESAS !


LUI MONGO


 Em 1936 Charles Chaplin compôs a música " S M I L E " -  fruto de seu sentimento e visão particular sobre o mundo que passava por momentos conturbados, de desigualdades, de tristezas, de guerras, de incompreensões, de desamor. Como sempre em sua vida, tudo fazia e tudo fez na esperança de levar um pouco de alegria, de sorriso, de solidariedade, de amor e de esperança a todos ... mostrando como a vida pode ter um sentido de beleza apenas com um sorriso sincero saindo do coração !

Chaplin viveu todos os seus dias levando alegrias às pessoas e partiu dessa vida com um lindo sorriso. Suas mensagens ficaram eternizadas nos corações de todas as pessoas de todos os cantos do mundo... e sempre que recordam Chaplin, emocionam-se com lágrimas e sorrisos de felicidade, na certeza que a vida tem muitos encantos !.

S M I L E (música de Charles Chaplin):

" Sorria, embora seu coração esteja doendo...
  Sorria, mesmo que ele esteja partido...
  Quando há nuvens no céu,...
  Você sobreviverá...
  Se você apenas sorrir !
 
  Com seu medo e tristeza,...
  Sorria, ... e talvez amanhã...
  Você descobrirá que a vida ainda vale a pena,...
  Se você apenas sorrir !

  Ilumine sua face com alegria,...
  Esconda todo rastro de tristeza,...
  Embora uma lágrima possa estar tão próxima,...
  Este é o momento que você tem que continuar tentando !.

  Sorria,... pra que serve o choro?
  Você descobrirá que a vida ainda vale a pena,...
  Se você apenas sorrir ! "
 

A VIAGEM DE " LUI MONGO " - O PALHAÇO DA "FAMILIA FLAMINI"

Manoel era um jovem argentino de aproximadamente 25 anos e tinha grandes habilidades em artes cênicas, além de ser cantor, poeta, mágico ilusionista e compositor. Era o homem das várias artes !.

Adorava conhecer e conversar com as pessoas. Não havia quem não ficasse sorrindo o tempo todo enquanto conversava com Manoel.

Um dia reuniu seus amigos e decidiu com eles formar um grupo - ao qual passaram a chamar "FAMILIA FLAMINI", pois eram muito unidos e todos tinham habilidades parecidas. A partir desse dia, Manoel que era tratado pelos amigos como "Lui", passou a ser chamado de "LUI MONGO" .

Faziam parte da Familia Flamini, o seu irmão sanguineo de nome VERSO e também seus irmãos de jornada, DEMIAN e MARIANO.

Resolveram viajar para as pequenas cidades de países vizinhos da América do Sul, tais como Chile, Colombia, Bolivia, etc., ... com sonhos em percorrerem por todos os demais das Américas e, quem sabe, outros continentes. O espírito AVENTUREIRO dos amigos era uma grande motivação para conquistarem o mundo através de suas apresentações amadoras que apenas objetivavam levar a alegria, o sorriso, a solidariedade e a amizade entre os irmãos dos vários países - nada mais do que "jovens entusiastas" !

Lui Mongo admirava as histórias de aventuras de El Cid, Don Quixote, Sancho Pança, de tantos outros heróis que sempre lutavam pela paz e alegria entre os homens... mas, em especial, ... Lui amava tudo que Charles Chaplin havia feito e deixado para o mundo e, incontáveis e incansáveis vezes ele assistia os filmes de Chaplin ou lia tudo que dizia respeito a aquele Grande Homem.

Era conhecido entre amigos e familiares, como Saltinbanquista, Chaplinero, Bicicletómano, Acrobata, Anarquista, Romântico Sonhador, Mágico Ilusionista, Palhaço dos Sonhos, entre tantas outras qualidades.

Em suas viagens, a Familia Flamini ia de bicicleta pois, Lui - o lider do grupo, dizia:

" O mundo deve andar de bicicletas, pois assim aproveitamos as paisagens e sentimos o frescor do vento tocar nossos rostos... !"



Por onde passavam todas as pessoas riam muito vendo aqueles quatro palhaços pedalando, levando tantas coisas em suas bicicletas para montarem seus cenários.
.
-  "Aqueles palhaços, pareciam palhaços !"

E não havia quem não parasse para admirar a passagem dos quatro amigos, pedalando, sorrindo, seguindo sempre fortes e firmes em busca da alegria, da felicidade... pedalando... pedalando...

Uma noite, muito fria, dormindo na mata, Lui estava muito sensível olhando o firmamento, tentando ouvir o silêncio da mata, algum ruído de pequeno animal, sentindo o frio tocando seu rosto.... Então começou a compor um poema. Estava com saudade e queria rever sua familia que havia deixado na Argentina há quase cinco anos.

Preparavam-se para o regresso ao lar...

Não se sabe porque, ... Lui parou de sonhar !...

Ele sonhava voltar para casa e rever sua família. Ele sonhava continuar seguindo pelas estradas, pedalando, levando a amizade, o sorriso a todas as pessoas humildes que encontrava pelo caminho... Ele queria ser como Charles Chaplin e abraçar o mundo todo...

Voltando da Colombia, pedalando, com destino a Argentina, quando estava chegando na Bolivia, em uma pequena curva da estrada por entre a mata, Lui parou de sonhar ! Foi atropelado por um ônibus que não conseguiu evitar aquela tragédia. As pessoas correram para tentar salvá-lo.... Ele estava ali caído ao chão, silencioso, olhando tudo a sua volta, sem expressar qualquer dor... Olhou sorrindo para Verso, o seu irmão:

- Verso, ... naquela noite que fazia tanto frio, eu recebi uma Luz que me disse para escrever esse poema. Siga com a Familia Flamini,... siga com Deus e leve a todos os cantos desse mundo a mensagem de alegria, de amor, de paz da Grande Familia Flamini !

Verso, abraçou seu irmão silenciosamente sem nada falar. Todos os presentes, consternados, também em silêncio iniciaram uma oração...

Lui despediu-se do mundo com um sorriso timido nos lábios, ingênuo, inocente e seu espirito foi levitando serenamente até Deus !

Verso tomou o poema em suas mãos e começou a ler aos presentes, emocionado entre lágrimas e sorrisos !

" mira como se nos va la vida, ...
   mira un buen rato que su dia termina,...
   y vuelve a empezar,...
   cada dia una vida nueva !

   mira,... volar esa hermosa mariposa,...
   volar por un dia no es una gran cosa,..
   para ella es una eternidad,...
   un dia es una vida entera !

   atento que la muerte esta a la vuelta de la esquina,...
    firme que la vida es ahora ,...
    y hay que aprovechar,...
   a vivir con intensidad !

   cada dia es una vuelta de pagina,...
   del libro de tu vida,...
   llenalo de paz,...
   de palabras magicas !

   mira,... no podemos evitar los procesos naturales,...
   de la infancia y la vejes , ...
   inquebranmtable !
   la felicidad no esta,...

   en las cosas de afuera,...
   mirarse a uno mismo,...
   para caminar,...
   y vivir con tranquilidad ! ".
  
Nesse mundo em que vivemos há muitos Anjos que nos acompanham, travestidos de pessoas comuns, simples, humildes ... e nos convidam sempre a seguir um caminho de paz, de alegria, do Bem. Nem sempre conseguimos perceber suas presenças e, às vezes, quando percebemos ...

Lui, foi um dos Anjos que Deus enviou para plantar a amizade e alegria entre tantos que puderam ter a felicidade de conhecê-lo e sentir a sua luz ... Ele estava sempre sorrindo... e voltou sorrindo para o Céu !

Seus amigos, também Anjos Mensageiros de Deus, disfarçados como 0s Palhaços - DEMIAN, VERSO e MARIANO, continuam levando alegria e esperança às pessoas mais simples, independente de cor, de raça, de credo ou quaisquer outras coisas, dos lugares mais distantes, sem nada pedirem a si próprios ... mas, tão somente, com o sentimento de boa vontade e muito amor para transformar uma parte do mundo em um eterno " SMILE " !

Saudemos o Lui, chorando com muita alegria ! Pois, como Palhaços que somos, o melhor presente é ver a platéia "Chorar de tanto Rir !"

Raul Neves Abreu
29/12/2009  20:37

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Contando Estrelas !





... Não posso acreditar: estou aqui sozinho contando estrelas !

São quase três horas da madrugada,... está frio e não sinto nada. O sereno começa a molhar toda a vegetação... percebo que meu paletó está gelado, mas não sinto frio,... e estou só olhando o firmamento...

Não há nuvens ! São quase três horas da madrugada e nem posso acreditar,... estou contando estrelas ! Você pode acreditar nisso ? Estou contando estrelas... !

Não há nada novo por aqui. Lá dentro estão tocando músicas românticas e todos estão dançando,... Mas você não veio e não pude mais ficar lá. Porisso estou aqui sozinho,... com o coração acelerado,... contando estrelas...!

Nunca pensei que chegasse a isso,... Mas estou aqui sozinho dançando e cantando com os olhos voltados para o céu, procurando você.

... Ah ! Que desejo incrível que estivesse agora aqui comigo !

Se alguém me visse aqui fora nesse sereno, ... Tudo está escuro sob a luz das estrelas e eu aqui... sozinho,.. sonhando que estou dançando com você,... Não sei o que iriam pensar, mas certamente saberiam.

Sabe o que mais gosto em você ? Adoro o seu sorriso, o seu olhar, os seus cabelos tão macios, as suas mãos tão suaves, a sua voz parece uma canção de ninar, o seu jeitinho de andar, a sua timidêz, dançar abraçadinho com você,... Eu gosto de você !. É tudo em você que faz meu coração pulsar feliz... !

Vem aqui e fica comigo ! Abrace-me carinhosamente, olhando em meus olhos e sintamos nossa respiração face a face. Vem aqui, vem... ! Estou sozinho, ... precisando tanto de você !

Olhe aquela linda estrela,... é a nossa ! Já fiz um desejo que é todo sobre você, ... É um desejo de tocar e sentir os seus lábios, ... e ficar a noite inteira fazendo amor com você !.

Aqui não há nada, ... só o sereno, a luz das estrelas, a música lá longe, ... e o chão todo florido com grama molhada !. Mas,... o que precisamos mais ? Não precisamos de mais nada,... só eu e você !.

Vem aqui e fica comigo ! Vamos dançar ! ... Só nós dois, ... a música, ... o sereno ...  e as estrelas iluminando o nosso amor !

Vem,... !


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Raul Neves Abreu
02 / 08 / 2010