domingo, 19 de janeiro de 2014

O CATECISMO


José Augusto, filho único de Seu Rodrigues e Dona Zazá, era o aluno mais aplicado e mais inteligente da classe !


Recebia de seus pais uma educação invejável: estava sempre bem arrumadinho, limpinho, cheirosinho, falava mansinho, cabelinho bem cortadinho, e uns óculos fundo-de-garrafa pra ninguém botar defeito (era a única coisa errada no garoto) !

Era o preferido de todos os professores, pois era muito estudioso, caprichoso, educadíssimo e levava sempre presentinhos a todos !

Ia completar 12 anos e fazia o cursinho de catecismo pra fazer sua primeira comunhão. Seus pais já anunciavam uma grande festa para esse grande dia.

Os pais eram fazendeiros muito prósperos, de uma família muito tradicional e centenariamente proprietária de fazendas de gado e café.

Diziam as más línguas que eles viviam fazendo festas suspeitas ! Vai saber...

Guto, como era carinhosamente chamado, não tinha muitos amigos, pois a maioria dos garotos não vinha de famílias abastadas e não tinha os recursos que ele fartamente desfrutava.

Ele chegava de carro todos os dias na escola. O Choffeur, Seu Benedito, trabalhava para a família desde que nasceu visto que seu pai também já era empregado dos avós de Guto.

Seu Benedito vinha com uniforme, chapéu de choffeur, botas de pelica,... tudo que um bom choffeur tinha direito em uma família de ricos !

Quando chegava à escola, estacionava o carro justamente onde as meninas estavam aguardando ansiosas pra ver Guto. Abria a porta para o garoto, estendia-lhe a mão para ajudá-lo a descer e estava sempre, nessas horas, com o boné embaixo do braço em posição de respeito.

Uma beleza ! Ninguém tinha aquela mordomia !

As garotas, com suas saias xadrez e boina combinando, meias ¾, ficavam olhando Guto descer do carro, uniformizado com aquele terninho impecavelmente alinhado, bem passado, engomado e perfumado... Ahhhhhhhhhhhhh,... que garoto lindo e futuro bom partido !

Embora não disputasse da simpatia dos garotos que morriam de inveja, ele era adorado pelas meninas. Mas, Guto, devido à sua rígida educação, era um garoto dócil e muito tímido. Morria de medo das meninas e gostaria muito de ter os garotos como seus amigos pra ir jogar bola com eles, brincar de qualquer coisa como qualquer garoto normal.

Não sabia o que fazer pra conquistar a amizade deles. Só desfrutava da amizade de outros poucos garotos de família muito abastadas, de narizes muito empinados, diferentes dele em comportamento, assanhados com as garotas as quais, pelo poder, assediavam e eram bem sucedidos.

Um dia estava sozinho em sua casa, a mansão que ficava numa quadra inteira no centro da cidade, perto da igreja. Seus pais viajaram e deixaram a governanta incumbida de tomar conta de Guto e, Benedito, para levá-lo, naquela semana, aos rotineiros lugares: escola, igreja, casa dos tios e retorno para casa !

Guto entrou no quarto de seus pais ! ...

O quarto era imenso. Tinha uma televisão colorida embutida, enorme, em móvel de jacarandá importada diretamente para eles.

Olhou o imenso armário no closet... Tudo arrumadinho e brilhando impecavelmente. Abriu a porta do armário de roupas e viu estranha mala... Não resistiu e abriu.

Dentro da mala havia uma coleção enorme de revistas de um autor chamado: CARLOS ZÉFIRO - o mestre dos quadrinhos eróticos do Brasil, conhecido por quase todo garoto de “mão peluda” entre as décadas de 50 a 70.

Carlos Zéfiro publicava uma revista de quadrinhos eróticos com deliciosas aventuras pornográficas em traços simples e sem cor, mas que eram o terror das mães conservadoras, com seu conteúdo que trazia sexo sacana e putarias de todo tipo (a alegria da molecada).

Os quadrinhos eróticos de Carlos Zéfiro foram amados e odiados. Arte e Pornografia. Hoje, sua obra é aclamada por diversos artistas e considerada “Cult”.

Não somente essas revistas, mas Seu Rodrigues, pai de Guto, tinha uma coleção pornográfica enorme de revistas importadas, baralhos, objetos e diversos artigos interessantíssimos para “festas de casais” !

Ele não entendeu nada daquilo, apesar de que, claro, viu logo os desenhos das revistas de Zéfiro, coisa que nunca tinha imaginado existir e ficou boquiaberto vendo aqueles traços de mulheres nuas com seios fartos e sexo com uma vasta cobertura de pelos...

- Pelos? Não sabia que mulheres tinham pelos! Minha mãe acho que não tem !

Pegou logo um exemplar da revista – A CARONA, que na capa estampava a foto de uma mulher à beira da estrada e um caminhão – FNM estacionando (que todos chamavam de FENEMÊ).

Na capa da revista, no rodapé, alertava: “EXPRESSAMENTE PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS”.

No cabeçalho estava registrado: “ Aquela garota parada à beira da estrada me fez parar o caminhão. Era tão gostosinha que bem merecia o que queria: UMA CARONA ! “

Ele ficou assustado enquanto abria a revista. Havia gravuras e textos eróticos...

Foi correndo para o banheiro, fechou a porta, colocou aquele imenso par de óculos e começou a ver e rever gravura por gravura e a ler texto por texto. Não entendeu quando percebeu que estava ficando excitado; aquilo nunca havia acontecido, pois, afinal, nunca tinha visto e nem ouvido em casa comentários sobre sexo já que seus pais eram sempre de uma lisura irretocável !

Dia seguinte, após a aula da escola quando ia para a aula de catecismo na Igreja, ele levou a Revistinha de Zéfiro dentro do livro de catecismo.

Quando chegou à Igreja, chamou o José Carlos, cujo apelido era Tico-tico, um garoto que até que gostava um pouco de Guto.

- Olha só o que achei em casa, Tico-tico!
- Nossaaaaaaa ! Você tem um Catecismo ?
- Tenho sim,... mas estou falando dessa revistinha que achei...
- Sim, essa mesma. Essa revistinha chama-se Catecismo...
- Catecismo? Mas aqui não tem nada de aula de religião...
- Mas é Catecismo. Todo moleque da cidade faz qualquer coisa pra ter um Catecismo desses...
- Ah, é? Eu não sabia. Isso aqui é Catecismo? E esse livro de aula de Catecismo?
- Esse aí é Catecismo da Igreja... Mas essa revistinha é um Catecismo que a molecada leva atrás da moita pra “bater umas” em grupo...
- Bater umas em grupo? O que é isso?
- Você nunca bateu uma?
- Bateu o quê ? Não sei....
- Uma punheta, vendo catecismo!
- O que é isso?
- Olha, vamos fazer o seguinte, Guto: depois da aula de Catecismo, a gente vai lá na casa do Zé Espingarda e você vai ficar sabendo. Mas isso é um segredo, você não pode contar pra ninguém, tá bom ?
- Tá bem ... !

Tico-tico já avisou logo a molecada que Guto tinha um Catecismo e que iria levar na casa do Zé Espingarda a tarde. A molecada ficou toda alvoroçada...

- Seu Benedito, o Sr. poderia me levar na casa do Zé Espingarda hoje depois do almoço?
- Sim Sr., Seu Guto. Mas o que o Sr. vai fazer lá?

Guto exitou e lembrou-se da recomendação do Tico-tico pra não contar pra ninguém. Então resolveu inventar uma desculpa...

- É que hoje temos que estudar o Catecismo...
- Ah! Sim Senhor! Vou levar o Senhor sim!

Ele almoçou com uma ansiedade daquelas, pois queria descobir o que era “bater uma” !

Quando deram 2 horas da tarde, ele já estava preocupado e foi descendo as escadas do andar superior da casa, onde ficava seu quarto, para encontrar Seu Benedito.

- Ah, Senhor Guto... já estou pronto para levar o Senhor!

Assim foram até a casa do Zé Espingarda. Quando lá chegaram, Seu Benedito esboçou um largo sorriso como nunca havia feito antes, pois viu logo a garotada toda entusiasmada esperando Guto ! ... Que mudança !

- Hei Guto, estamos esperando você pra estudarmos o Catecismo! Que bom que você já chegou... !

Foram até o quintal da casa onde havia uma casinha de depósito de materiais do pai de Zé Espingarda. Guto estava muito surpreso, pois até aquele dia nunca tinha recebido tanta atenção e carinho daqueles moleques. Ficou todo empinadinho de contentamento!

- E aí, Guto? Você trouxe o Catecismo?
- Não, eu deixei lá em casa. Eu trouxe só essa revistinha aqui...
- Isso mesmo ! É esse Catecismo aí que estamos querendo ver ! Vamos começar a leitura já !

A molecada sentou-se no chão. Todo mundo tirou o calção e imediatamente nomearam Tico-tico pra fazer a leitura, exibindo os quadrinhos para todos...

- Mosqueteiros: De arma em prumo... Vai começar a festa: todo mundo com o pinto na mão “batendo uma bem batida” pro nosso amigo Guto aprender o que é um Catecismo! E hoje vamos bater uma com o pensamento na Martinha, a gata mais gostosa da cidade !

Guto ficou assustado com tanto moleque ali pelado. Não sabia o que fazer e tirou a roupa também. Afinal, o que ele mais queria na vida era ter amigos e deixar aquela vida tediosa e monótona de “filhinho de papai” !

Botou o “pirulito” pra fora, observou bem os novos amigos e começou a copiá-los numa “batida celestial” ! ... E pensou na Martinha que também era seu maior desejo !

- Uau ! Que delicia... ! Isso aqui que é “bater uma” ? Eu tenho lá em casa umas 50 revistinhas dessa... ! E tem outras com fotografias coloridas que eu descobri no quarto do meu pai !

- Guto, a partir de hoje você é o nosso maior amigo! ... Agora, todo dia você vem aqui que vamos Estudar o Catecismo e “bater umas” até o “prego virar alfinete” !

Guto voltou muitas vezes e seus amigos foram testemunhas do dia em que ele “virou homem” jorrando o seu primeiro orgasmo.

... “SANTO SENHOR CARLOS ZÉFIRO – O PROTETOR DA MOLECADA !”

Guto nos dias seguintes levou todas as revistas para os novos amigos conhecerem e, com isso, passou a ser considerado por todos como o melhor amigo a ponto de convidá-los sempre para freqüentarem sua casa e desfrutarem daquela linda piscina.

As garotas começaram também a freqüentar sua casa, para alegria de Seu Rodrigues – que sabia muito bem o que tinha acontecido.

Volta e meia Guto levava todos, inclusive as meninas, para o enorme Galpão onde ficavam os carros, para estudarem com muito afinco e aplicarem em aulas práticas os grandes ensinamentos do Catecismo... !

E foi assim que Guto, a partir daquele dia, chegava todo dia na escola com um sorriso largo estampado no rosto e era recebido aos abraços calorosos de toda molecada, deixando as meninas malucas por ele...

... Bem, não foi à toa que ele ficou sendo conhecido tempos depois ... e respeitado por todos,... como “O Rei do Galinheiro !”

Hoje, Guto é um homem formado, próspero empresário, bem casado e homem sério !

Mas, em sua vasta sala, naquele maravilhoso prédio de 20 andares da Capital, tem uma passagem secreta para uma grande estante onde ele guarda um GRANDE TESOURO – A coleção completa dos Catecismos que adquiriu durante toda sua vida, com as assinaturas de seus inesquecíveis amigos e, ainda, um quadro que lhe ofertaram:

... “Ao amigo Guto, O CAMPEÃO DAS BATIDAS, a lembrança de seus amigos da infância !”

Desde que se mudou para a Capital, Guto faz um encontro todos os anos com seus amigos. Nessa data eles selecionam um Catecismo e lêem em voz alta, como no princípio, fazendo “alguma homenagem” àquelas garotas que foram suas fantasias enquanto crianças:

... Aninha, Rosinha, Soninha, Clarinha, Mariinha, Cicinha, Cristininha, Martinha....

Esse ano, o Catecismo selecionado foi “ FRUTOS PROIBIDOS ” que será lido pela Martinha – que sempre foi e continua sendo a garota mais desejada da cidade.

Várias amiguinhas da época também estarão presentes, além dos marmanjos da turma do “bater uma em grupo” da casa do Zé Espingarda.

A Martinha mandou avisar que nesse encontro, em homenagem aos 20 anos de nossos encontros e às tantas “batidas” que foram feitas com o pensamento nela, ela vai satisfazer os desejos da “molecada” lendo NUAZINHA fantasiada de "MAMÃE NOELA" todo o Catecismo “  FRUTOS PROIBIDOS  ” !.

Martinha fantasiada de Mamãe Noela

Bem,... pedindo licença aos leitores, eu já vou me despedindo porque não sou de ferro e fiquei a vida toda pensando na Martinha e sonhando com uma oportunidade dessas. E essa, ... eu não vou perder por nada desse mundo ! ... (depois eu conto o restante).

Ah, esqueci de dizer que o Encontro vai ser hoje, ... daqui a pouco ! Putz ! ... e eu sou o Tico-tico !

TICO-TICO




LA CUCINA DE ZIA NORMA !





LUCIANO PAVAROTTI (1935 - 2007)  -  FUNICULI FUNICULÁ

Logo cedo, pela manhã, já se podia ouvir daquela casa o rumor da “dolce vita de una famiglia italiana ” na tranqüila cidadezinha !.

- Mafaldinhoooo, ... ! Ô Mafaldinho ! Me põe logo tuo uniforme e me vai logo pra scuola per studare.
- Va via, mamma... va via ! Non me rompere le bale logo cedo,... cazzo !
- Va via tu figliori de un cane. Me vai correndo pra scuola che tuo pappa já foi ao lavoro!

Era muito engraçado, muito alegre, muito feliz, viver ali pertinho da “famiglia” da Dona Norma. Uma grande salada de idioma... (risos) !

Ela era uma italiana nascida na capital paulista – no Brás, e tinha traços físicos de uma linda napolitana, como lembra bem aquela atriz que fez o papel de Beatrice no filme “O Carteiro e o Poeta”, filmado na Bahia Napolitana, em especial em Procida e Ischia.

Dona Norma tinha um humor incrível: sempre sorrindo, sempre solicita, sempre pronta a dizer uma palavra carinhosa a todas as pessoas que por ali passavam, em especial as crianças que freqüentavam seu lar e eram amigas de seus filhos.

Eu era um garoto privilegiado, pois não somente era amigo de seus filhos, mas era vizinho de casa e meu quarto ficava a poucos metros da copa onde a “famiglia de Dona Norma” tomava todas as refeições.

Eu ficava ali na minha cama, quietinho, gargalhando, deliciando quando eles estavam tomando café, almoçando, jantando, ou qualquer outra coisa, pois era muito divertido ouvir tudo que diziam.

- Puta Merda, Mafi, non mi fala bobage na mesa !
- Caspita, non mi rompere le bale...!

Eu não entendia nada do que falavam em “italianês” (italiano com português), mas, até hoje, 50 anos depois, cada vez que exclamo alguma coisa, em qualquer lugar, digo logo:


“Puta merda Mafi”...

 ... e, quem ao meu lado ouve não deve entender nada, mas, é minha forma carinhosa de brincar com as pessoas, numa saudosa lembrança daqueles dias maravilhosos que convivia diariamente com aquelas  que sei que Deus colocou em nossos caminhos, em nossa vida, para tornar tudo mais bonito e mais agradável.

Meus filhos aprenderam algumas dessas expressões e, como eu, repetem sempre por onde andam de tal forma que sei que passarão adiante por muitos anos para muitas pessoas, que também levarão adiante, pela simples ternura, sem mesmo conhecerem o motivo e origem de sua história (a minha história).

Dona Norma fazia uma pizza maravilhosa. Quando eu sentia aquele cheirinho maravilhoso, era como em um filme de desenho animado:

... “o cheiro caminhava pelo ar vagarosamente até meu quarto e me levava levitando até a casa de aquela delicata signora ! ”.

PIZZA DA ZIA NORMA

- Oi Dona Norma, ... tudo bem? Ah, eu vim aqui pra brincar com o Mafaldinho.... Ele está ?
- Seu malandro, você veio aqui por causa do cheiro da minha Focaccia !.
- Focaccia? Que que é isso? A Senhora não está fazendo aquela deliciosa pizza cheia de tomates?
- Estou sim. Mas é uma focaccia. Você quer experimentar um pedacinho?
- Não, Dona Norma,... eu vim apenas ver se o Mafaldinho estava...

Dona Norma, sorrindo, não perdeu tempo e foi logo colocando um pedação daquela “Pizza Focaccia” em um prato e eu, mais que depressa, engoli aquela delicia em poucas mordidas esperando o repeteco que vinha em seguida.

- Ah, você já comeu tudo? Puxa, estava com fome mesmo... na tua casa não tem comida? ... hahaha !!! Agora você vai comer a sobremesa. Fiz uma gelatina de morango que está uma delicia !

Ela deu-me um potinho pirex (bem pequeno) com gelatina de morango, geladinha. Uma delícia! Mas, ... sorrindo sem conseguir disfarçar, deu-me uma colher de arroz, bem grande, que não cabia dentro do potinho ... !

- Dona Norma ... ! Como ... ??? !!!
- Ha, ... ha, ... ha ! ( lol ) ... você não consegue comer com essa colher ?... !

Eu nem ficava com vergonha por causa das brincadeiras da Dona Norma e, para recompensar tanto carinho dela comigo, eu levava sempre um maço de Salsões que tinha no canteiro de minha casa, pois ela adorava. Levava também os brotos de abóbora, que chamávamos de “cambuquira”, pois ela fazia vários tipos de pratos. Algumas frutas do quintal de casa, ... outras verduras,... Era o mínimo que eu poderia fazer pra demonstrar o quanto eu ficava feliz com o carinho que recebia daquela senhora.

Não posso esquecer as brincadeiras que ela fazia comigo e com as demais crianças, sempre bem humorada, mas sempre com muito carinho com todos.

" Puta merda, Mafi, ... O tempo passou. Caspita !"

 Não vejo Dona Norma há tantos anos. Nem seus filhos, seu marido que sei que já “habita o Oriente Eterno”, ... mas sempre estiveram tão presentes em minha vida, nas minhas queridas lembranças que as vezes sinto-me levitando em busca daquele saboroso aroma daquela cozinha onde, além das deliciosas comidas que ela fazia, eu sempre sentia uma  alegria tão grande, harmonia, paz e muita vontade de viver sorrindo. Estou com saudade !

“ Puta merda, Mafi ", ...

Se pudéssemos gravar o tempo e participar dele a cada momento que bate uma saudade aqui no peito, ... eu queria tanto poder dizer o quanto foram importantes em minha vida,... naqueles momentos tão maravilhosos que ficaram e estão guardados com muito carinho aqui no meu cantinho do lado esquerdo ...

...aquele vinho Chianti, ... aquele queijo gorgonzola,... a TV quando chegou à cidade,... a caminhonete onde saboreávamos ao vento no rosto,... as pescarias,... a pizza focaccia,... o Mafaldinho cantando,... as festas de aniversário,...

Que saudade !

Há uma musica "speciale" , entre tantas outras, que me transporta sempre em uma lembrança gostosa desse tempinho cheio de encantos:

... Puta merda, Mafi: nom mi fai piangere de saudade ! Puta merda, Mafi !
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Raul Ramos Neves de Abreu
            19 / 01 / 2014

MARIA FORMIGUEIRA



A manhã estava nublada e muito fria por causa do vento e de uma fina garoa que caía bucolicamente sobre a cidadezinha. Era inicio do inverno. Poucas pessoas caminhavam vagarosamente e bem agasalhadas pelas ruas. O relógio da Igreja marcava 6 horas da manhã.

A rua principal, Santo Antonio, de paralelepípedos, toda escorregadia devido àquela fina garoa que caia de mansinho. Era um digno espetáculo observar aquela cena tão romântica:

... As jardineiras nos alpendres das casas todas molhadinhas e as folhas das plantas pareciam encolher-se de frio que até parecia se poder ouvir suas exclamações ora de contentamento e agradecimento por estarem sendo abençoadamente regadas pela natureza, ora porque estava bastante frio mesmo... brrrrrrr !!!

A carrocinha que trazia leite e produtos da fazenda – frutas, legumes e verduras, subia chorosa a ladeira e Seu Manoel, o leiteiro, bradava gentilmente com Malhado:

- Ôa, ... ôa Malhado ! Vamos amigão, temos ainda que entregar todo leite e voltar logo pra casa! Ôa, Malhado... vamos !

Malhado era um cavalo já meio cansado de idade e de trabalho e puxava todos os dias aquela carrocinha silenciosamente. O pavimento da rua, de pedras, todo escorregadio, obrigava-o a um esforço ainda maior, mas, mesmo assim, ele continuava subindo a ladeira silenciosamente.

- Bom dia, Seu Manoel !
- Bom dia, Maria Formigueira! Você não está com frio? Está aí toda descalça e sem agasalho !
- É, Seu Manoel ... !

Seu Manoel pegou logo um saco vazio de feijão, todo em tramas grossas de algodão e ofereceu a Maria Formigueira que tremia de frio, com uma saia tão fina e uma blusinha toda rasgada. Ela, rapidamente colocou sobre os ombros e num sorriso tímido agradeceu:

- Que Deus lhe pague, muito obrigada !

Ninguém conhecia o passado de Maria Formigueira, quem era e de onde teria vindo. Ela era uma negrinha franzina, cabelos curtos, dentes maltratados, pés descalços todo machucados, andarilha pela cidade à procura de um prato de comida já que ninguém tinha coragem de perguntar sobre suas necessidades e tentar oferecer-lhe um trabalho.

Era muito popular porque invariavelmente estava embriagada.

Mas, chamava muito a atenção, entre tantas outras coisas, que ela até sabia ler e escrever, embora com muita dificuldade, pois era de se esperar que naquele estado fosse totalmente analfabeta.

Ela carregava sempre uma pedrinha e, quando podia, fazia uma pequena oração e em seguida escondia a pedrinha embaixo de algum buraco ou tijolo que encontrava por onde passava.

Ninguém entendia o que queriam dizer aquelas pedrinhas escondidas.

- Olha lá aquela macumbeira de novo ... ! Deve estar jogando praga em cima de alguém... Essa negrinha é um perigo pra essa cidade, alguém tem que tomar uma providência e mandá-la embora daqui ! Só pode ser macumba, ela colocou mandinga contra alguma ou algumas pessoas embaixo daquela pedra... eita “bicho do mato” !

Assim, muitas pessoas sempre pensavam e diziam sobre ela.

Maria Formigueira continuou descendo a ladeira até chegar à ponte do riacho que dividia a cidade. Ficou lá olhando demoradamente, gesticulando e falando sozinha. Devia estar, como pensavam as pessoas sobre ela, fazendo algum tipo de prece em benefício ou malefício de alguém.

Foi mais adiante e lavou seu rosto naquelas águas geladas que desciam na corredeira e depois se espreguiçou, molhou novamente o rosto, olhou ao redor, em silêncio, balançou a cabeça, sorriu... e começou a perambular... até chegar à casa de uma senhora, idosa, que a acolheu com um largo sorriso:

- Bom dia, Maria Formigueira! Como você está, minha filha? Aí nessa garoa, toda molhada, ensopada, vai pegar uma pneumonia. Entra logo que vou preparar um leitinho quente com café e um pãozinho com manteiga e umas roupas pra você trocar !

Ela olhou Dona Aparecida com lágrimas nos olhos, entrou na casa em silêncio, tomou um banho bem quentinho e colocou roupas limpas e secas que a Senhora havia separado pra ela.

- Oi, Dona Aparecida, a Senhora não precisa se preocupar comigo. Estou bem! A Senhora é uma Santa de pessoa e Deus vai sempre olhar pela Senhora.
- Minha filha, você precisa descansar... fica aí andando pela cidade... E veja se não toma mais essa bebida que está acabando com você... Você ainda é tão nova, precisa reagir. Confia em Deus que sua vida vai melhorar !
- Ah, Dona Aparecida,... a Senhora me lembra minha mãe... coitadinha que já está lá no Céu. Ela era tão boazinha comigo, mas uma doença levou-a embora tão cedo e eu fiquei sozinha nesse mundo. Não sei quem é meu pai...
- Minha filha, você não está sozinha. Tem muita gente que gosta de você. Toma logo esse lanchinho que preparei e depois vai lá no quartinho dormir um pouco que você vai ficar bem !

Ela olhou bem Dona Aparecida, em lágrimas de felicidade... comeu e bebeu com muita vontade e depois foi dormir.

À tardinha, ela saiu da casa e novamente, como fazia todos os dias, começou a perambular pela cidade, parando em cada vitrine de loja para olhar os brinquedos, as roupas, as novidades... sempre em silêncio. Pegou uma pedrinha e fez uma oração, como habitual, foi até uma árvore da calçada e, colocou-a junto as raízes.

As pessoas olhavam intrigadas e, já sabendo que ela havia passado o dia em casa de Dona Aparecida, imaginaram logo que fosse alguma praga contra aquela boa senhora.

Com uma varinha, deslocaram a pedra, sem colocar as mãos e lá nada estava escrito !!!. O que seria isso? Em todo lugar havia uma pedrinha assim !.

A noite começava a dar seus ares e, com ela, o frio aumentava e a garoa continuava. Maria Formigueira entrou num boteco e, mesmo sem pedir nada, o balconista encheu um copo de cachaça e entregou a ela.

Ela olhou fixamente para o balconista, seus olhos ficaram mareados, olhou para o copo, olhou para as pessoas que assistiam ironicamente em silêncio e bebeu todo o conteúdo do copo. Em seguida mais outro e mais outro... até não saber mais onde estava ou quem era ... e foi saindo cambaleando pelas ruas sob aquela garoa que já se fazia mais forte.

Ao descer novamente aquela ladeira da rua principal, enquanto as pessoas do boteco observavam sua caminhada, ela deparou-se com um vulto escuro na esquina e, de tão embriagada que estava, começou a conversar com ele, sem perceber que era apenas um poste de ferro, de energia elétrica:

- Oi meu neguinho,... só você que pode me entender: minha mãe morreu e eu estou aqui nesse mundo vagando sem saber pra onde ir... nem sei quem é meu pai, não tenho irmãos, não tenho família, ... por onde vou todos me olham com medo...

O poste ali parado, nada respondia.

- Eu estava com fome e me deram pinga. Com esse frio... você me desculpa, viu neguinho... tem muita gente boa nesse mundo, mas tem gente que não está dentro da gente pra saber o nosso sofrimento...

O poste ali parado continuava sem responder

- Dona Aparecida, uma mulher muito boa, uma Santa de pessoa, me deu de comer, de beber e até me deixou tomar banho e me deu essas roupas aqui... que agora já estão todas molhadas de novo. Mas eu não quero atrapalhar a vida de ninguém não, viu meu neguinho. Só você que pode me entender porque você também é um neguinho, como eu, e deve entender como são essas coisas.

- Vou colocar de novo essa pedrinha aqui lá embaixo daquele banquinho ... você fica aí de olho e não deixa ninguém pegar, viu? Eu tenho que deixar essas lembrancinhas ... Mas você só fica aí parado, meu neguinho? O gato comeu a sua língua? Vem cá e me dá um abraço que eu vou embora dessa cidade hoje mesmo pra ver se encontro o meu lugar... !

Nesse instante, ainda sem perceber que falava com um poste, ela abriu os braços e abraçou com muita vontade pensando ser algum moço que estava ouvindo sua história.

O poste tinha um fio descascado e, devido ainda mais à chuva, quando Maria Formigueira o abraçou houve uma descarga elétrica na coitada que a jogou deitada de costas no chão, toda dolorida e assustada, demorando alguns minutos pra se refazer.

- Oi meu neguinho ! Até você me maltrata? Minha mãe foi embora, não tenho mais ninguém nessa vida... e você me dá um coice desse tamanho? O que eu fiz de mal pra você ?

Ela desceu a ladeira desconsolada, às lagrimas e soluços e foi se deitar em um sofázinho de vime que havia na varanda de uma casa. Levantou as almofadas e colocou várias pedrinhas e dormiu um sono profundo !

Pela manhã, os cachorros da casa latiam sem parar.

Seu João, o dono da casa, assustado, foi logo ver o que estava acontecendo e quando abriu a porta da sala que dava para o alpendre viu aquela negrinha lá dormindo profundamente sem se mexer...

Reconheceu-a e aproximou-se dela com cuidado. Olhou-a, colocou sua mão sobre a testa de Maria Formigueira, olhou sua esposa que também assistia e disse:

- É a Maria Formigueira! Ela morreu dormindo aqui, como uma anjinha, coitada. E espalhou todas essas pedrinhas...

A cidade toda ficou logo sabendo do acontecimento. Chamaram o padre que imediatamente mandou preparar um velório com muito respeito àquela pobre criatura. Ninguém entendia o porquê de tanto carinho com ela e, então, o padre disse:

- Essa pobre criatura estava perdida. Vinha muitas vezes à Igreja rezar pela memória de sua mãe e também pela saúde e paz de todos os moradores desta cidade. Ela nunca fez mal a ninguém, mas sim orou todos os dias por todos e agora ela deve estar lá no céu nos braços de sua querida mãe.

Todos que assistiam àquele velório ficaram em silêncio envergonhados e com remorso de seus pensamentos sobre aquela moça e, emocionados, muitos oravam com lágrimas nos olhos desejando paz a Maria Formigueira e perdão para seus próprios pecados da indiferença e do preconceito.

O Delegado aproximou-se do padre e não resistiu a perguntar como porta-voz de todos os moradores também inquietos sobre o que seria o mistério de Maria Formigueira:

- Perdão Senhor Padre, já que o Senhor conhecia bem a Maria Formigueira, poderia nos dizer por que é que ela sempre colocava uma pedrinha escondida em algum lugar ? Todos sempre imaginaram que isso fosse algum tipo de magia contra alguma pessoa...

O Padre olhou bem para o Delegado e para todos que ficaram em silêncio esperando sua resposta:

- Meus filhos, essa mocinha amava a todos dessa cidade, apesar de sua vida desregrada. Ela perdeu sua mãe muito cedo. Aprendeu a escrever e pouco escrevia, mas, ela fez uma promessa, que eu só poderia revelar após sua morte.

- Eu sempre lia a Bíblia para ela ,explicando o significado de cada passagem. Um dia, li sobre Pedro 2:4-8, onde Pedro usa a imagem da pedra para descrever a comunidade Cristã, como sendo a Pedra Principal na construção de nossas vidas. Ela entendeu então que Deus, O Pai, é o Gande Construtor e Jesus, O Filho, O Instrumento, ou seja, a Pedra Principal para a construção e salvação de nossas vidas.

- Assim, Maria Formigueira fez uma promessa que durante todos os dias de sua vida iria depositar uma pedrinha, após uma oração, desejando que Jesus habitasse o coração de todos e protegesse sua querida mãe que havia partido tão cedo para o Céu.

- E ela, todos os dias, independente de sua situação, orou por todos e colocou uma pedrinha rogando a Jesus que iluminasse e guardasse a todos os viventes desta cidade...

- Espero que nesse momento nos juntemos todos em oração para que essa pobre criatura alcance um lugar entre os justos e repouse em paz!

As pessoas atendendo ao chamado do Padre, cabisbaixas, envergonhadas, entreolharam-se e silenciosas voltaram para suas casas  ... !

Muitos anos se passaram...

Ninguém mais se lembra daquela negrinha inocente, humilde e cheia de esperanças chamada Maria Formigueira !

Raul de Abreu
mar / 2008

ONDE ANDARÁ TIQUINHO ?

Durante aqueles tempos, poucas coisas assustavam as pessoas nas cidades: Lendas do Saci-Pererê, da Mula sem cabeça, fantasmas à meia- noite no cemitério, a ventania em noite de lua cheia, chuvas durante a madrugada, ou no máximo, as loucuras de um embriagado que mais falava insanidades do que ameaças às pessoas...


Ah ! ... Também havia Maria Louca. Ela era uma pessoa que ninguém sabia a idade, se nova ou velha, apesar de aparência muito desgastada. Vivia perambulando pela cidade falando sem parar, sozinha e pra si mesma, gesticulando como se estivesse discutindo alguma coisa com alguém... Todos temiam que ela fosse alguma coisa mais que apenas uma mulher louca.

Mas, o que mais assustava mesmo era Tiquinho. Ele era apenas um garoto simples, muito humilde, calado, de olhar sereno e talvez órfão porque ninguém ainda havia conhecido seus pais. 

Era muito estranho e ninguém sabia dizer porquê. Sentia-se um calafrio quando se chegava perto dele...

Não conversava com as pessoas e todos tinham receio de perguntarem alguma coisa a ele, que apenas olhava as pessoas, permanecia calado, porém com um olhar bem sereno, cativo...

Tinha belos olhos azuis, esboçava um sorriso tímido, um perfil delicado e parecia ser muito bondoso. Mas, mesmo assim, todos tinham certo medo...

Poucas vezes era visto pela cidade. Geralmente viam-no na Praça da Igreja observando as copas das árvores e, imediatamente, os pássaros voavam ao seu encontro e pousavam em seus braços, nos ombros, sobre sua cabeça...


Ele apenas sorria e acariciava aquelas criaturas. De repente, com um simples olhar, como se fosse uma ordem, as aves voavam de volta aos lugares de onde tinham saído.

Contam que ele conversava sim com todos os animais que existiam... ! ???

Um dia contaram que viram Tiquinho caminhando pela mata e que lindas borboletas azuis acompanhavam-no enquanto ele seguia por uma pequena trilha... Não só as borboletas, mas também coelhos, esquilos, pássaros, lagartos e até cobras iam com ele por onde ele passava... 

Tudo em silêncio, tudo muito estranho, mas tudo em perfeita harmonia !

Ele foi caminhando,... caminhando,... afastou delicadamente algumas folhagens que atravessavam seu caminho, as quais voltaram em seguida aos seus lugares... Não se sabe como e nem porque, logo em seguida ele com todos aqueles animais nunca mais foi visto ! 

Nem na cidade alguém o viu alguma outra vez !

Isso aconteceu há mais de quarenta anos atrás...

Recentemente eu estava em uma praça da cidade. Muitas árvores, e no meio da praça a temperatura estava fresquinha, embora um dia de calor causticante. Havia também uma fonte protegida por grades metálicas... e na pequena mureta de alvenaria estava sentado um homem de estatura mediana, magro, cabelos castanhos brilhantes, sedosos e com alguns tons grisalhos...

Ele acariciava os pássaros que vinham pousar em seu corpo. De repente, ele voltou seu rosto para mim e deu um sorriso que me fez sentir um calafrio estranho... Ele continuou me olhando e sorrindo... Tinha belos olhos azuis, um olhar carinhoso, um rosto já marcado pelo tempo, mas um ar sereno de quem só transmitia a paz !

Pensei naquele instante:

- Será o Tiquinho ?

Ele levantou-se vagarosamente e foi caminhando fora da praça olhando-me com aquele olhar estranho, mas muito bondoso... e as aves seguiam-no felizes !

Voltei mais vezes àquela praça em vários horários, ... Fui a outras praças, rodei toda cidade a sua procura e não sei onde é que ele foi parar... 

Isso aconteceu somente há apenas duas semanas atrás !

Estranho... ! Quem será aquele homem ? Por onde andará o Tiquinho ?

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Raul Neves Abreu
18 / 12 /2011

VÁ PROS QUINTO DOS INFERNO !

Estava fazendo um frio de “lascá os cano” e pra piorar, estava garoando e era noite. Marquinhos queria ter ido viajar com seus amigos para o acampamento de férias,... "O TÃO ESPERADO ACAMPAMENTO DE FÉRIAS ESCOLARES DE JULHO !!! "

Não foi !

Ele estava com 14 anos de idade, na 8ª série do Primeiro Grau e no domingo seguinte, data de aniversário da cidade, ia acontecer uma grande festa da Igreja: "A FESTA DA PRIMEIRA COMUNHÃO" !

Tradicionalmente os jovens fazem a primeira comunhão com menos de 12 anos de idade. Marquinhos tinha 14 e ainda não tinha feito. Que vergonha !

Seus pais haviam dito ano anterior que se ele não fizesse a primeira comunhão, iria receber um castigo que não era pra esquecer nunca !

Recebeu o castigo e não esqueceu !

O pior de tudo é que seus amigos também não esqueceram e não o pouparam das provocações, lembradas por muitos anos ainda.

Chegado o dia da Confissão ele não sabia ainda o que dizer. Leu o catecismo e tentou decorar os  " Mandamentos ". Eram só 10 Mandamentos. Uma loucura: poderiam ser só 2  ou 3. Mas eram 10 e não ia dar tempo pra decorar.

Todas as crianças naquela cidadezinha católica começavam aulas de catecismo logo que aprendiam a ler e escrever, ou seja, por volta dos 7 anos de idade. Marquinhos era repetente do catecismo por muitos anos porque ele saia de casa para a Igreja, mas ao invés de ir às aulas, ele ia jogar ping-pong no salão da Congregação Irmãos Marianos e seus pais não sabiam.

Apesar de muito novo ele era exímio jogador de ping-pong e invariavelmente ganhava campeonatos até em categorias superiores a sua idade. Seus pais ficavam orgulhosos, gabavam-se disso e acabavam relevando a falta do filho.

Quando ele via a Beata que dava aulas de catecismo, tentava disfarçar e fugir. Mas ela chegava com um sorriso tão angelical diretamente até ele e dizia:

- Marquinhos, meu filho. Você não tem freqüentado as aulinhas de catecismo. Papai do Céu não vai gostar disso. Você está cometendo um pecado. Olha só a Mariazinha que é da sua idade,... ela começou com você e já fez a Primeira Comunhão já faz uns 4 anos !

Marquinhos ficava “p. da vida”. Todo mundo olhava pra ele com ar de provocação quando ele era chamado à atenção. E, para piorar mais ainda, ele ainda tinha que abaixar a cabeça, dizer um contrariado “Sim Senhora” e ainda beijar a mão da Beata e pedir a sua bênção! Era tudo que poderia acontecer pra estragar sua semana.

E estragava toda semana!

Mas, naquela noite, mais ou menos 7 horas da noite, com aquele frio danado, ele foi pra fila das crianças que iriam fazer a confissão para a Primeira Comunhão. Todos pequenos e ele grandão.

Todos olhavam pra ele e ele fazia caretas, mostrava a língua e morria de vergonha: um marmanjo de 14  anos e de calças curtas, com as pernas já cabeludas.

Parecia piada, mas não era !

Ele já estava na fila fazia uns 20 minutos e parecia que aquilo não ia terminar nunca. Na sua frente havia ainda umas 3 crianças, mas,... atrás... ele nem ousou contar porque deveria ter mais de 30. E todos esses cochichando sobre o “marmanjo” na frente que ainda não tinha feito a Primeira Comunhão!

Pegou o caderninho do catecismo e começou a ler. Não entendeu nada. Estava nervoso, com frio e putíssimo da vida! Pensou:

- Tudo bem, que se foda! Eu chego lá e digo que pequei e pronto! Mas,... e se o padre perguntar contra que mandamento? Bem, eu vou então dizer que tive maus pensamentos e tá liquidado o papo, afinal geralmente o Cônego, aquele velhinho é bonzinho e não vai querer fazer perguntas !

Errou!

Não era o Cônego, aquele velhinho bonzinho. Era um padreco metido a besta que tinha acabado de chegar na cidade. Ninguém conhecia o “franguinho”: - cabelinho bem penteado, cara de boy, metido a cantor, um topete tipo “Tony Curtis”... só faltava mascar chiclete e um sotaque que não era típico da cidade. Ele não falava “ pórta abérta, janela tórta, se vinhé chuva ou sór, ninguém simpórta ! ” O malandro falava bonito, devia ter vindo da “capitar”.
O PADRECO
Filho da mãe, quando estava chegando a vez de Marquinhos, saiu do confessionário, olhou bem pra fila, olhou pra cara do Marquinhos com um sorriso irônico do tipo “aí, filho da puta, agora chegou sua vez... vou te fuder!” e saiu apressado lá pro lado da sacristia, onde tinha uma “pórta abérta que não era tórta” que levava ao banheiro.

"Viadinho" (o padréco) devia ter ido dar uma mijada mas demorou tanto que, com certeza, aproveitou também pra dar uma bela cagada, só pra deixar Marquinhos com mais vergonha e mais puto ainda.

... (peço desculpas às Santas Senhoras Beatas, castas, puras e puritanas que estiverem lendo isso aqui, mas o padreco me irritou).

Voltou esfregando as mãos e com um sorriso muito filho da puta! Olhou pra Marquinhos com aquele olhar desmoronador, e só acenou com a mão chamando pra ajoelhar....

E Marquinhos foi: “ajoelhou tem que rezar!”

Padréco perguntou o nome e Marquinhos, deu seu nome, sobrenome e até endereço (ele era detalhista porque não sabia o que dizer).

- E aí, Marquinhos você cometeu algum pecado contra os Mandamentos da Lei de Deus ?
- Sim seu padre. Acho que sim !
- Acha? Mas contra que mandamentos você pecou ?
- Bem,.... eu tive maus pensamentos, falei bobagens....!
- Mas você não sabe dizer contra quais mandamentos? É isso que dá ficar jogando ping-pong quando deveria estudar o catecismo. Diz logo que pecados você cometeu e eu vou lhe ensinar quais são os mandamentos !
- Tá bem. O Sr. quer saber o quê ?
- Desembucha logo malandro, que tem uma fila enorme atrás de você e todos estão rindo porque você é um marmanjo que ainda não fez sua primeira comunhão !
- Então, eu tive maus pensamentos e fiz bobagens !
- Que tipo de bobagens? Você quer dizer que fez “coisas com animais”? por exemplo, galinha, cadelinha, cabritinha, bateu umas punhetinhas ?
- É !
- É? Só isso? E você não fez bobagens com meninas ou meninos ?
- Fiz sim, mas foram só umas três vezes... mas só com meninas !!! ... ah, também teve uma cabritinha !
- Então confessa logo que vou ver se tem perdão !

Marquinhos ficou muito irritado e pensou: "ainda vou dar uma ferrada nesse padreco duma figa"

- Ah !... Outro dia fui lá atrás do quintal da Dindinha, a filha daquele homem e da Dona Lucia, aquela professora e ficamos brincando lá atrás das árvores... eu, ela e a Pitinha que é a filha do,... o Senhor conhece ele e da Dona Tiazinha lá da fazenda... mas aí a mãe dela saiu correndo lá no quintal pra ver o que estava acontecendo eu saí correndo com a roupa na mão e quando fui passar na cerca de arame farpado, me machuquei e meu calção ficou preso e eu tive que correr pelado pra casa !... Mas ninguém me viu não, viu ?
- Bem feito, seu vagabundo! Tem mais pecado, seu malandro ?
- Ah, também fiz bobagens com a minha priminha ,a filha da minha tia Sinhá e do meu tio Zé, que trabalha lá na  Delegacia.. mas o senhor não vai contar pra ele não porque eu não quero ir pra cadeia ... !
- Acabou? Vou pegar logo o " Livrão das Penitências " e você vai ficar o ano todo rezando e ajoelhando no milho pra pagar os seus pecados! Senão eu conto pro seu Tio !

Marquinhos mais puto da vida ainda, vendo a "viola em cacos", decidiu então acabar com o padreco:

- Ah,... quase ia me esquecendo: Outro dia fui brincar de casinha na casa daquela "sua sobrinha" a Aninha, que é a filha do Seu Manoel aquele médico que é o irmão do Senhor, Seu Padre, mas eu não vou mais lá não, viu ? Agora que sei que ela é sua sobrinha... Mas, também teve outros dias que...... !

O Padre, putíssimo da vida nem esperou mais Marquinhos acabar a confissão. Saiu muito bravo do confessionário, todo histérico, desequilibrado, balançando o topete, olhou pra fila enorme que aguardava a vez, assustada com o que estava acontecendo, apontou o dedo para Marquinhos e disse:

- " VÁ PROSQUINTO DOS INFERNO ” , ... " Seu Capetinha " e eu vou te excomungar. Some daqui e não apareça nunca mais !

Marquinhos sem entender o que estava acontecendo e por quê o padre estava tão bravo, levantou vagarosamente e foi “saindo de fininho” sem olhar pra trás praquelas crianças que estavam ainda mais assustadas do que ele e foi embora deixando um rastro de urina por onde passava, tal era o medo que sentia! (apesar dum sorriso irônico muito fdp).

No domingo, dia da Primeira Comunhão, Marquinhos foi pra Igreja e ficou lá atrás bem escondido, olhando pra todos os lados pra saber se o padreco estava lá. Não viu o padreco mas ficou na dúvida se deveria ir ou não ir pegar a hóstia.

E eis que a Beata, com aquele cândido sorriso, chegou até Marquinhos, tomou suas mãos e colocou-as em forma de oração e disse:

- Meu filho,... estou muito orgulhosa de você! Hoje é a sua Primeira Comunhão. Segue a fila e vá receber a bênção de Deus !

Então... ele, como um gato que fez arte e sabe que vai apanhar, seguiu em frente com as mãos em “estado de graça” e recebeu das mãos daquele Santo Padre Italiano que rezava a missa, o perdão eterno através da Hóstia Sagrada  !

... O Padreco nunca mais foi visto na cidade !

... Marquinhos, ... bem, ... Marquinhos tornou-se SANTO ! Agora ele é um Pastor! ... (cuida das ovelhas da igreja)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIOS !



 
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.INSENSATEZ  -  TOM JOBIN
 
Christianne era uma garota muito bonita e admirada por todos os rapazes da cidade.
 
Tinha um jeitinho todo especial de ser – espontânea, natural, dócil, às vezes ingênua, que fazia com que as demais garotas sentissem inveja, receio, ciúmes e, algumas, até ódio.

- Cuidado com seu namorado: Christianne dá em cima de todo mundo, ela gosta de roubar os namorados da gente !
- É, menina, ... fiquei sabendo que o Jorginho brigou com a namorada – a Suely, só por causa da Christianne. Essa menina é perigosa !

Ela estava sempre com um largo sorriso no rosto, onde quer que fosse. Na escola não havia quem pudesse prestar atenção às aulas senão apenas naquela mocinha que ficava sentada nas primeiras fileiras, toda cheia de graça, despreocupada, ... uma verdadeira princesa !

Como tantas outras, também tinha algumas dificuldades em algumas matérias o que motivava comentários daquelas que não desfrutavam de sua amizade:

- Ela é muito bobinha, você viu ? Ela só serve pra ficar se exibindo e assediar os namorados alheios !, ...
- Ela nem sabe escrever direito... Não entendo como os rapazes ficam ali babando... Só pode ser por causa “daquela coisa “ !, ...

As garotas não perdoavam Christianne. A ela era atribuído tudo de ruim que acontecia com seus namorados.

Eu era vice-presidente do Diretório Acadêmico da Escola e dois anos mais velho que Christianne. Também era muito amigo de seu irmão, José Carlos – um rapaz muito educado, sempre bem humorado, simpático e bem quisto por todos.

Eu não conseguia entender porque tanta diferença no trato das pessoas em relação aos dois irmãos – Christianne e José Carlos. Mas pensava que as mulheres eram mais sensíveis que os homens e, por isso, sentiam ciúmes tão infantis por coisas tão bobas:

Christianne era natural e isso atraía os rapazes !

Também notava que o simples fato de fazer parte do Diretório Acadêmico, já fazia com que me transformasse em uma “pessoa especial”, desejado pelas garotas e invejado pelos garotos. Que coisa idiota !

Não sabia bem por quê Christianne estava sempre me procurando. E onde estivesse ela me chamava em voz alta:

- Marcos,... Marcos,... Marcoooooosssssss ......... !

Eu ficava constrangido com aquela demonstração, pois sempre fui muito discreto. E, mais ainda, quando Christianne estava chamando meu nome em voz alta. Sentia muita vergonha. Tive que procurar seu irmão e falar sobre o assunto:

- Zé Carlos, não sei como dizer, mas é uma coisa muito embaraçosa: sua irmã não me deixa em paz. Dá um jeito nela e fala pra ela parar com isso !
- O quê que é isso, garoto ? Você tem medo de mulher ?
- Não é isso, Zé Carlos. Ela é muito chata e vive dando em cima de mim. Eu não gosto disso, é muita baixaria...
- Vai garoto,... você está é com medo da minha irmãzinha... (risos) !

Também não entendia o Zé Carlos. Ele era um bom amigo, mas, quando conversávamos sobre sua irmã, até ele não levava o assunto a sério.

Aquela garota vivia me assediando de tal maneira, que eu nunca percebia como ela era bonita e, menos ainda, que todos os garotos queriam namorar com ela... Confesso que ela me dava “ânsia de vômitos” quando se aproximava de mim.

No cinema, ela sempre estava lá esperando uma chance pra sentar ao meu lado... Nos bailinhos, era ela que vinha me convidar pra dançar,... nas quermesses,... era ela que me mandava tantos correios elegantes,... na escola,... os bilhetinhos com desenhos coloridos dizendo: “ Marcos,... eu te amo !,... na minha casa minha mãe dizendo: “ A sua namoradinha trouxe um docinho pra você ! “.

Eu não podia sair de casa que já encontrava com ela. Ela era a garota mais chata que eu já havia conhecido. Ela não me deixava em paz !

Chegaram as férias escolares de Julho e fui viajar com meus pais para casa de meus avós. Ufa ! Que alívio ficar longe um pouco daquele ambiente que estava me estressando.

Christianne morava com sua avó e tias em nossa cidade. Seus pais moravam em Salvador - Bahia. Ela e José Carlos também foram viajar. Foram para a casa dos pais.

Mês seguinte, Agosto, no primeiro dia de retorno às aulas, estávamos no pátio da escola quando vi Christianne no meio de um grupo de colegas, contando sobre suas férias.

Ela estava toda bronzeada, com uma cor tão bonita que chamava demais a atenção de todos. Imediatamente ela me viu e deu um sorriso costumeiro...

Fiquei ali quieto olhando... E não me incomodei como antes.

Como ela estava bonita ! Eu nunca tinha percebido que ela era tão bonita ! Não sei dizer o que aconteceu,... mas a partir daquele instante comecei a olhar aquela menina com um interesse que jamais havia sentido.

Ela percebeu,... mas continuou lá com suas amigas.

Estranhei. Ela nunca ficou sem chamar o meu nome... O que estava acontecendo ? Fiquei atordoado, parado ali como uma estátua.

Naquela semana minha vida estava mudada: não havia mais o assédio daquela chata ! Fiquei pensando se ela teria se envolvido com algum garoto "porreta da terrinha",... afinal os baianos, inclusive ela e seu irmão, eram conhecidos como muito “liberais e assanhados”...

- Será que Christianne tem um namorado baiano ? Será que ela não gosta mais de mim ?

Uma coisa que nos incomoda muito é alguém ficar nos constrangendo por tanto assédio...

Mas o que mais nos incomoda é a indiferença, quando "ninguém se incomoda em nos incomodar", porque isso dá uma sensação muito esquisita, um sentimento de que não temos mais aquelas qualidades que atraem as pessoas, uma sensação de "vazio", de impotência, e nos faz ficar pensando coisas do tipo:

- Será que estou com algum cheiro mal cheiroso ? Meu desodorante está vencido ? Meu cabelo está feio ? Minha calça está rasgada ? Meu sapato está sujo ? Não sou mais tão bonito ? Tenho cara de babaca ? Será que sou gay ? Será que outro safado chegou primeiro e tomou conta do que é meu ? Não estou mais agradando ? Mas eu sou o máximo ! O que é que está acontecendo ...???

Tantas coisas se passaram pela minha cabeça que quase pirei !

Era uma tarde de Quinta-feira e a temperatura estava amena, pois em Agosto o inverno já começava a dar ares de Primavera... Ah, a Primavera ! As flores coloridas, perfumadas, os pássaros, os sentimentos, canções de amor ... !

Zé Carlos estava no jardim da Igreja principal da cidade conversando com os amigos e contando sobre sua viagem. Eu estava mais interessado em saber o que estava acontecendo com sua irmã... Deixei aquele grupo de amigos e nem sei como dizer, fui até a casa deles.

- Oi Christianne, seu irmão está em casa ?
- Não. Zé Carlos deve estar na pracinha conversando com a turma. Você não foi lá ?
- Não. Eu pensei que ele estava aqui ...
- Não está.
- Ah,... que pena ! Eu queria conversar com ele...
- Quer entrar ?
- Não,... eu queria falar com ele...
- Entra !
- Bem, não sei... Você está bem ?
- Entra ! Vou mostrar as fotos das férias...

Era isso que eu queria mesmo: entrar ali naquela varanda, ficar olhando aquela garota, conversar, ver fotos,... e entender o que estava acontecendo comigo.

Christianne foi até seu quarto, pegou várias fotos e veio rapidinho. Ainda ouvi sua avó perguntando o que ela estava fazendo e ela respondendo que estava conversando com um amigo da escola. Fiquei nervoso, é claro, pois minhas intenções naquele dia estavam muito confusas. Eu não sabia se iria ter ânsia de vômito novamente ou se iria me interessar pela garota.

Ah,... ela estava linda: toda bronzeada, um rosto angelical e ao mesmo tempo insinuante, uma camisetinha azul claro deixando ver o contorno do corpo e os sinais dos seios, uma saia curta colorida, sandálias coloridas... Aquela menina parecia uma Estrela de Cinema ! E eu ali sem conseguir respirar de tanta ansiedade...

- Olha aqui: Meus pais resolveram nos levar até o Rio de Janeiro. Estivemos em várias praias do Rio: Búzios, Angra, Sepetiba, Ipanema, Recreio, Leblon, Copacabana... Ah ! Copacabana como é linda !

Eu nem vi direito as paisagens... Só consegui ver fotos de uma garota linda com biquíni, mostrando um corpo maravilhoso e me deixando muito nervoso. Eu nunca tinha visto uma garota de biquíni ao vivo... e aquela maravilha estava ali perto de mim, com um cheirinho tão gostoso... eu conseguia sentir sua respiração. Aquela situação foi me deixando alucinado...

- Linda !
- Eu ?
- A paisagem. Linda ! Claro, você também está muito bonita nas fotos...
- Ah,... pensei...
- Você é muito linda Christianne...
- Você acha mesmo ? Nunca se interessou por mim...
- Bem,... sabe como são as coisas...
- Eu gosto de você, Marcos... Mas você não quer me namorar...
- Acho que quero sim...
- Quer ?
- Não sei,... acho que sim... mas,... será ... ?

Eu sempre ouvi dizer que Christianne tinha a fama de “destruidora de namoros” e que, para isso, ela assediava os namorados das amigas e até ficava em intimidades com eles... Então, vendo aquelas fotos e tendo aquela garota a menos de um metro de mim, não resisti a um incontrolável desejo de homem e ter aquela mulher em meus braços...

- Sim,... eu quero namorar você sim... mas,...
- Mas o que? Você quer ou não quer ?
- Bem, eu queria...
- O que você queria ? Fala... eu quero saber ... o que você queria ?
- Christianne,... eu queria ver você...
- Você está me vendo...
- É,... mas eu queria ver os seus seios... posso ?
- Não ! isso não !
- Por quê ?
- Não, isso não pode... não faz isso não !
- Mas eu quero... Se você mostrar eu namoro você...
- Não... não pode !
- Mas todo mundo diz que você já mostrou para outros garotos...
- Mentira !
- As meninas da escola vivem falando isso... que você faz coisas com os namorados delas...
- Mentira... Eu nunca fiz nada disso
- Eu ouvi dizer... Fala a verdade..
- Nunca tirei namorado de ninguém ! Elas que não gostam de mim e inventam coisas... Eu sei que elas falam tantas coisas. Mas é tudo inveja, mentira !

- Mostra pra mim, vai... !
- Não,... não posso... Minha avó está em casa,... minhas tias... não posso !
- Mostra senão não namoro você !
- Não... por favor,... não faça isso comigo... eu amo voce !
- Bem, eu vou embora...
- Não,... não vai não... eu te amo ! Mas não faça isso comigo...
- Então mostra... eu quero ver você... estou com muita vontade de ver...

Ela ficou transtornada, desesperada. Parecia que estava sendo violentada contra sua vontade... Olhou toda sem graça, constrangida, com ar de choro e começou a levantar aquela camisetinha... até cobrir o seu rosto e deixar os seios à mostra.

Olhei aqueles seios,... lindos,... pequenos,... rosados,... puros...

- Christianne... Como você é linda !

Ela abaixou a camiseta e mostrava um rosto em lágrimas... Seu soluço provocou-me lágrimas também. Eu não sabia o que fazer, ... comecei a sentir uma dor no peito,... percebi que estava sendo um bandido forçando aquela menina a se submeter a uma “coisa” que nem sei como qualificar de tão baixa quer era e me fazia sentir vergonha do meu ato,... fazia-me sentir um verme nojento que tinha chegado aquele ponto devido aos comentários maldosos que faziam sobre aquela doce garota.

- Christianne,... perdoe-me. Hoje pela manhã, vi você naquele pátio... Depois você não mais falou comigo,... pensei tanta coisa,... que você não me queria mais,.. que já estava namorando alguém na cidade,... aquelas meninas dizendo coisas de você,... minha cabeça ficou tão mal... Esses dias todos eu só pensei em você,... e as suas fotos... Perdoe-me,... eu sou um cachorro mesmo,... perdoe-me...

Ela continuou ali derramando lágrimas, sem nada falar, com vergonha de me olhar...

- Eu nunca me mostrei pra alguém , Só pra você, porque eu amo muito você !
- Perdoe-me,... perdoe-me... perdoe-me... Eu vou fazer de tudo para que você não se sinta mal e que veja que eu não sou assim...

Fui embora desesperado daquela casa. Nunca contei isso pra qualquer pessoa, ao contrário do que todos aqueles garotos certamente teriam feito.

Nos dias seguintes não vi Christianne.

- Zé Carlos, e sua irmã ? Ela não tem vindo à escola...
- Ah, eu acho que ela está gripada... Está lá em casa de cama e chora o dia inteiro...
- Gripada ? Chorando ?
- Não sei. Ela deve estar doente.

Eu sabia : - fui o responsável por tudo aquilo !

Christianne ficou o restante da semana em casa restabelecendo-se daquela violência que pratiquei. Não consegui ficar tranqüilo nem um minuto com medo que ela contasse para sua avó ou tias e essas viessem bater à minha porta. Sei que meus pais iriam me castigar, ... mas,... pior : - "como é que eu pude chegar a aquele ponto" ?

Os dias se passaram e na semana seguinte encontrei Christianne na escola. Tive receio em me aproximar, mas precisava mais uma vez me desculpar...

- Christianne, estou muito mal. Por favor, me perdoe. Faço o que você quiser pra que você me perdoe...
- Marcos,... pensei muito esses dias. Não posso culpá-lo por ter agido daquele jeito. Sei que as meninas vivem inventando a meu respeito... Você não tem culpa,... mas, creia, nunca fiz nada de errado... só você que sabe e espero que não conte o que aconteceu...
- Juro por tudo que há mais sagrado ! Nunca vou comentar... E também quero dizer uma coisa muito importante: descobri que você é a garota que eu gosto e que quero namorar... e não tem nada a ver com o que aconteceu... Quero ser seu namorado de verdade e ter o maior respeito com você...
- Marcos, também quero. Mas, por favor, não me peça mais pra fazer o que fiz aquele dia...

O pátio da escola estava cheio de alunos. Senti que todos nos observavam...

Despedimo-nos com sorrisos e, aliviados, fomos para nossas salas de aulas...

Meu namoro com Christianne durou quase um ano. Durante esse período, muita alegria - lindo, agimos sempre com muito respeito, embora sentíssemos muitos desejos.

Ninguém mais fez comentários maldosos, pois, pela primeira vez, Christianne tinha um namorado e perceberam que havia apenas fantasia na cabeça das pessoas... e, de verdade, ela era apenas uma inocente criatura, educada, gentil, tímida, linda,... por quem as garotas da cidade sentiam muita inveja !.

Christianne voltou a morar com os pais em Salvador quando completou 18 anos de idade. Dizem que lá concluiu Universidade, casou-se e foi morar no exterior. Talvez Portugal, França,... Sei que o pai dela tinha parentes e uma casa em Lisboa...

Hoje, muitos anos depois daqueles dias, estou me lembrando com doçura daquela linda menina.

Por quê será que, às vezes, a gente se deixa levar pelos comentários dos outros, pelas aparências, pelas impressões e acaba injustamente julgando pessoas ? Acho que tudo isso é mesmo uma "questão de princípios" pois, inicialmente, somos "Pedra Bruta" mas nos são dadas muitas oportunidades para irmos aos poucos burilando, polindo as impurezas que nos caracterizam até nos tornarmos como "Pedra Polida" de real valor.

... " C´est la vie ! "

Naquela tarde, aprendi uma grande lição que me acompanhou a vida toda:

- “ aquela doce menina, inocente e pura, somente cedeu aos meus impulsos, com lágrimas, por ter me amado demais ! ”

Nunca vou me esquecer daquele rostinho angelical e daquelas lágrimas ! Que saudade !

Ah... ! Tantos anos se passaram !

Agora estou aqui, emocionado e falando sozinho, nesta rua tão movimentada com tanta gente olhando pra minha cara tão desajeitada, ...

Nem vou me importar com o que possam pensar ! É tamanha a saudade que vou gritar bem alto pra todo mundo ouvir, ... como ela sempre fazia comigo:

- Christianne,.... Christianne... Christianneeeeeeeeeeee ! ...
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Raul Neves Abreu
22 Fev 2010