domingo, 19 de janeiro de 2014

O POSTE DE PIRÚ


Naquela Promissora Cidade,... havia um Bar onde os homens encontravam-se para o rotineiro “happy hour” ao final de toda tarde e de seus trabalhos !.
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A cidade, naquela época, com quase 5 mil habitantes, era um lugarejo sem outras atrações a não ser um acanhado cinema, a praça da Igreja, alguns botequins de “cachaça “e o Bar do Seu PEDRO FABRICANTE onde também havia uma pista de bocha... E era lá mesmo que Pirú ia todos os finais de tarde até o fechamento por volta das 10 horas da noite.
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Era a “moda” tomar conhaque, entre um gole e outro de pinga... E as piadas corriam soltas, alguns solando violão  – ABISMO DE ROSAS, ou outras que os “já embriagados” pela “tar da marvada” cantavam desafinadamente tentando um ser mais “tenor” que o outro. Havia até discussão e quase briga por causa de quem desafinava mais que o outro...
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- Você não sabe cantar,... só desafina...
- Eu não ! Eu sei cantar sim,... você é que não sabe nada seu...
- Olha lá o que vai falar seu...
- Seu, o quê ?
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E a discussão parava para mais um gole e continuava após alguns outros,... mas nunca houve briga de verdade e, no dia seguinte, comentavam os desequilíbrios daqueles “Senhores de Família” do  Bar do FABRICANTE. ! Piru sempre saía cambaleando.
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Seu nome era Pedro, magro, estatura mediana, usava óculos "fundo de garrara" e tinha esse apelido, Pirú, devido a sua timidez e também porquê sendo da pele muito branca, sempre ficava muito vermelho quando ia conversar com as pessoas. Muito tímido, muito tímido...
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Era solteiro e apaixonado por Dona ANINHA, a professorinha mais charmosa da cidade, mas nunca teve a coragem de se declarar diretamente a ela.
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Dona Aninha também era moça de boa família, muito recatada e também muito tímida, embora todos da cidade achassem que eles se gostavam e que acabariam se casando, ...
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Mas eis que um certo dia apareceu um homem elegante, forte, objetivo e decidido que era Oficial da Polícia Rodoviária e ela acabou se casando com ele. Coitado do Piru... !
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No final daqueles Happy Hour, que naqueles tempos chamavam de “último gole” Piru saía tarde do Fabricante e ia logo abraçar o poste...e dar uma “desaguada ou uma despingada ! ”...
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Naquela época os postes ou eram de troncos de árvores, desde o inicio de 1900 ou mais modernos e de ferro dos anos 40... E aquele poste do Piru, era um pretinho, bem enferrujado.
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Piru abraçava o “Poste do Piru” e se declarava, pensando em Dona Aninha, beijando, acariciando e “desaguando” no  pobre do coitado que ficava ainda mais enferrujado por causa do ácido úrico de sua urina...
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Certa vez, muito tempo depois de tanto se declarar, Piru abraçou o “neguinho”, como carinhosamente o tratava, com força e decisão... O Poste do Piru estava com um fio desencapado e, também por causa da garoa, estava eletrificado... e... PUUUMMM....! Lá se foi o Piru jogado longe com um choque que quase o fez morrer !
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- Ah é assim que você demonstra o seu amor ? Eu tantos anos aqui me declarando...
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Os companheiros da cachaça não se contiveram de tanto rir da desgraça do Piru e logo foram dizendo:
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- Aí, Piru... aí, Piru... tua sina vai ser mesmo se casar com um poste ou trabalhar na Força e Luz porque a tua querida Dona Aninha não vai querer receber suas “despingadas” e muito menos sentir o “doce aroma da amargosa ! “
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A partir daquela noite, Piru nunca mais voltou ao Bar do  Seu Fabricante. Pediu transferência do Banco onde trabalhava e mudou-se para outra cidade vizinha...
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Dona Aninha, dizem, casou-se e foi feliz...
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Sobre Piru, não se sabe mais dizer de seu paradeiro. Mas,... lá naquela cidadezinha as pessoas até hoje sempre lembram dele e contam até para seus netos sobre as façanhas de Pirú e o Poste do Pirú !.
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E no lugar onde havia o POSTE DO PIRU, hoje tem um novo Poste Padrão da Cia. de Força e Luz com uma placa em homenagem ao Piru, o herói de nossa história, com os seguintes dizeres:
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“ POSTE DO PIRU que quase morreu de amor sem nunca se declarar !”


Musica:  ABISMO DE ROSAS
INTÉRPRETE: DILERMANDO  REIS
COMPOSITOR:  CANHOTO (AMÉRICO JACOMINO)
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Raul Neves de  Abreu
24 / 05 /2013

O ESPELHINHO MÁGICO !


Há alguns anos atrás, o maior sonho de um garoto quando completava 10 anos de idade era ganhar um canivete.

Canivete significava a liberdade: descascar frutas, cortar gravetos no mato, enfrentar uma onça, cortar o ferrão de um peixe “mandi-chorão”, cortar a palha de milho pra fazer um cigarro, picar o fumo, cortar o cipó, o mato, furar buracos no chão pra fazer as birocas e jogar bolinha de gude, tantas outras coisas, ...

Canivete era um Símbolo de Macheza !

Canivete Suiço

Mas, ... ninguém brigava com ninguém, não ameaçava, não matava, não feria, não cometia qualquer tipo de delito. Apenas havia o desejo de ter um canivete, do mesmo jeito que se tem que usar cueca. Fazia parte da indumentária masculina e pronto !.

Aos 11 anos de idade, os garotos de bom aproveitamento escolar ingressavam no 1º ano ginasial, atualmente a 5ª. Série.

Uniforme obrigatório, com gravatinha azul marinho, sapatinhos bem lustrados, cabelo penteado... Ah ! Cabelo penteado!

Não havia um garoto que não portasse um Espelhinho de Bolso e, é claro, um canivete suiço.
Espelhinho de Bolso com foto de mulheres

O garoto em sala de aula, já esquecido o canivete, pegava o espelhinho toda hora, olhava para a menina interessante do lado, fazia pose, molhava as mãos com cuspe e em seguida os cabelos e admirava-se como um verdadeiro Narciso – o Rei da Beleza Universal, e alisava aqueles cabelos anteriormente emplastados de gumex em casa.

Fazia pose. O topete... Ah,... que topete ! Cabelo curtíssimo com um vasto topete.

Regininha, sentada na carteira escolar ao lado de Beto, ria como uma tonta cada vez que aquele doido tirava do bolso interno do paletó aquele arsenal de beleza: Um espelhinho de bolso, com a foto, no verso, de uma artista americana seminua e aquele pente enorme para aquele quase nada de cabelo cortado à moda americana.

- Oi Beto, para de se mexer. A professora já já vai dar uma bronca em você. Parece que tem pulga... e nem tem tanto cabelo pra ficar se penteando tanto...
- Não enche, Regininha, eu estou é de olho na professora. Como é linda essa mulher... ainda vou dançar com ela lá no clube, você vai ver!
- Duvido: ela já é uma velha, deve ter uns 25 anos e vai até casar...
- Eu sei. Mas acontece que o namorado dela não mora aqui... você vai ver !

Regininha era uma bela garota, de cabelos castanhos escuros, olhos azuis, face rosada, já mostrava que iria ter seios grandes pois já usava um soutien que se percebia pela blusa branca, de um tecido fino, do uniforme. A saia rodada, azul-marinho, um pouco abaixo dos joelhos. Pernas bonitas. Líder de um grupinho de seguidoras e candidata a secretária do grêmio estudantil.

Regininha
Beto,... bem,... Beto era como todos os outros: trazia no bolso interno do paletó um belo espelhinho com a foto de uma linda mulher.

Beto
Eis que no intervalo, os garotos lá no fundo, onde havia um matinho, juntavam-se para contar suas aventuras e observações, entre uma tragadinha e outra, e acabaram conhecendo por um veterano do 2º ano do ginásio, o Zé Gambá, a VERDADEIRA UTILIDADE DO ESPELHINHO MÁGICO !

- Aí garotada: esse espelhinho não é pra ficarem penteando o cabelo não, seus idiotas! Isso aí é pra colar em baixo da ponta do sapato, chegar perto de uma garota e admirar a bela calcinha que ela usa!
- Outro dia eu vi a calcinha da professora de Matemática. Que beleza de calcinha: branquinha com rendinhas ! Na hora do lanche, fui correndo lá no banheiro e “despenei o sabiá”!
- A professora de história então nem se fala: todo mundo já viu a calcinha preta dela... A de Espanhol dizem que até não usa calcinha, ... a mulher do Diretor só usa vermelha e todas as alunas só usam calcinha branca !.

Ficaram todos boquiabertos, olhando como idiotas mesmo uns para os outros e até pararam de fumar. Um sorriso malandro no rosto de cada um e... aprendida a nova lição saíram rápido daquela concentração para iniciarem suas novas “pesquisas” no páteo da Escola.

Beto, em sala de aula, tirava o espelho do bolso, olhava,... olhava, colocava de novo no bolso,... tirava de novo, repetia tudo ... e olhava ao lado para as pernas de Regininha com um pensamento nada convencional.

- “ você vai ser a minha primeira vítima, Regininha. E vai ser hoje !”

Mal sabiam os novatos que também as meninas já sabiam da história pois tinham sido alertadas pelas mais velhas ou até mesmo por suas mães. Entretanto, conquista era conquista e nada como um bom desafio, uma boa aventura para dar mais graça e calor a cada dia!

Começaram a testar em casa como colar o espelhinho no sapato de forma que não caísse e que ninguém percebesse. Foram até a praça da Igreja, onde então apareceu o sabichão do Zé Gambá e, mais uma vez, como um “Mestre” ensinou aos garotos que eles deveriam com o “famoso canivete” descolar uma parte do couro do sapato, na ponta, para que assim o espelhinho fosse colocado e ficasse com a pressão suficiente.

Dito e feito: os moleques descobriram a mais nova e mais importante Utilidade do Canivete! Todo mundo de sapato descolado na ponta !.

Dia seguinte, Beto quando entrou na sala de aula e sentou-se à sua carteira, colocou logo o espelhinho no sapato e ficou esperando uma chance em que Regininha se levantasse para já iniciar a nova mania escolar: Ver calcinhas !

Quando a professora entrou na sala, todos se levantaram, como era o costume, e Beto com um sorriso “encapetado” jogou logo o pé perto da saia de Regininha e ficou ali pasmo com aquela visão do Paraíso: A calcinha branca da Regininha!

Assim os dias que se sucederam foram todos de novas descobertas...

Lá no “fumeiro” , onde a garotada se escondia no matinho pra fumar o assunto era só um: A cor da calcinha que cada garoto viu!

Experientes, já vividos com mais de uma semana de malandragens, resolveram partir para conquistas mais significativas: Ver calcinhas de professoras!

A professora de português era linda.

Passava na cidade um filme chamado Sissi, com uma atriz alemã de nome Romy Schneider que era belíssima e todos estavam apaixonados por ela, tanto que os banheiros faziam filas durante os intervalos de aulas... Coitados dos Sabiás !

Todos achavam que a professora de português era idêntica a Romy Schneider...

A Professora de Música


Romy Schneider - A paixão da garotada
Os garotos combinaram no fumeiro que a próxima vitima seria a professora e, antecipadamente, iniciaram uma cerimônia de “sapecar o sabiá” em grupo, em homenagem ao futuro acontecimento.

Mas, sempre tem um "estraga prazer" ! De repente,... Luizinho, um tipinho muito esquisitinho...

- Fessora: Os meninos aí do lado da Sra. não estão querendo aprender a gramática não.... Eles estão é com o espelhinho no sapato só pra ver a sua calcinha....!

Filho da mãe daquele Luizinho que só gostava de bonecas...! Tinha que entregar todo mundo justo ali, naquela hora que estava acontecendo a cena mais linda do filme Sissi... e eu também estava vendo ????

Muito desapontada, aos prantos a professora olhou-nos com um sentimento de traída, sem conseguir pronunciar uma só palavra, soluçando, tremendo...

Conseguiu levantar a mão em direção a mim e disse:

- Você? Como pode fazer isso comigo? Justo você ?

O Diretor, o Servente, outros professores, alunos, ... um monte de gente veio correndo até a porta de nossa sala.

Estávamos ali, em pé, também em soluços, amedrontados, envergonhados...

Todos foram para a Diretoria. O Diretor chamou os pais. Veio até o Delegado de Polícia.

Os dias se passaram muito difíceis. Não se via a hora, cada dia, todo dia, de sair da escola e esquecer. Aquela professora não merecia aquele comportamento dos alunos, mas soube perdoar e foi a patrona da formatura.

Compus a letra do hino de despedida, chorando cada letra que imaginava, cada sentido, cada momento vivenciado, os momentos de alegrias, grandes alegrias, algumas decepções, algumas tristezas...

O Espelhinho Mágico, apesar de tudo, continua comigo em meus pertences. Há quem pergunte o que faço com esse objeto que ninguém conhece mais...

Não penteio mais meus cabelos com ele... Apenas tenho olhado, há muito tempo, desde aquela época, o olhar amadurecido, às vezes endurecido, modificado, ofuscado, saudoso.

Cada vez que olho esse espelho, viajo no tempo, pelo passado e futuro e sempre vejo aquela linda princesa – mais linda que Sissi, olhando-me com ternura, com um sorriso tão meigo e me perdoando por entender o instinto desprovido da razão que tomou conta por um inesquecível momento.

Não sei onde está a professora. Dizem que já partiu e ensina aos Anjos.

Eu sei que em breve também vou pegar essa nave espacial e estarei novamente diante dela porque eu preciso devolver o caderninho de notas que ela me emprestou e que guardei com todo amor e carinho todos esses anos... e também o Espelhinho, onde eu colei a sua foto.


O BAILE DE FORMATURA


O tempo passa e acabamos não percebendo que tantas coisas bonitas aconteceram em nossas vidas !


Carly Simon  -  Moonlight Serenade

Quantos planos, quantos sonhos, quanta energia conduzindo nossos pensamentos, os inocentes desejos de amar, as serenatas, as festinhas, ... os amigos que não vemos mais e nem sabemos onde foram parar, se ainda "habitam" esse plano ou se já "mudaram-se" para o "Oriente Eterno"...

Era uma vez em uma cidadezinha muito bonitinha, onde todos se conheciam... !

Havia uma grande ansiedade para a chegada da hora do "Grande Baile de Formatura" dos alunos da 4a. série ginasial do " GINÁSIO  ESTADUAL  PADRE  DONIZETTI  TAVARES  DE  LIMA " da pequena e simpática cidade de Tambaú, no interior do estado de São Paulo !

Quanta emoção !

A Grande Orquestra "LAÉRCIO DE FRANCA" tinha sido contratada para o grande evento. E a música escolhida para a "entrada triunfal " e apresentação dos formandos era MOONLIGHT SERENADE !

O convite, tão simples mas tão valioso, que ainda guardo após 45 anos, com muita saudade daquele dia e de todos aqueles que fizeram parte daquela Grande Festa !









O Convite informava que o Baile de Formatura seria no dia 23 de janeiro de 1965, porém, por problemas de datas da Orquestra o mesmo foi antecipado para o dia 29 de dezembro de 1964. Essa antecipação proporcionou uma alegria ainda maior pois as familias dos formandos ainda permaneciam na cidade pela data do Natal e também para a comemoração da passagem para o Ano Novo !

Ao Som de MOONLIGHT SERENADE, os formandos foram anunciados um a um ! E entraram vibrantes, sorridentes, não contendo a alegria da vitória de uma especial etapa. Cada um com o seu par de "Padrinho" ou "Madrinha" e iam postando-se em seus lugares no salão de baile para o grande momento da "Valsa dos Formandos" com músicas de Strauss !

- " Atenção Senhoras e Senhores:  Este é o grande momento dos formandos, iniciando com a VALSA VOICES OF SPRING  !"

André Rieu  -  VOYCES OF SPRING 
Maravilhoso ! Inesquecível  ! Emocionante... ! Eu estava dançando com aquela garota linda, sorridente, que me olhava com um olhar tão angelical que em meio a muitos sorrisos, senti o coração pulsar de paixão, de emoção, de alegria,... Estou sempre sonhando com aquele momento tão sublime e lembrando aquele doce sorriso.

A vida nos reserva momentos tão maravilhosos e quem por eles passou há de trazer sempre guardado no coração um sentimento eterno de alegria e realização !

Ah... que saudade ! Há 45 anos atrás ... e ainda consigo ouvir o som maravilhoso daquela linda música que dancei com a garota mais maravilhosa da cidade. Saudade daquela menina tão linda, tão cheirosa, tão suave, tão meiga, tão delicada,... tão...


O Poema de Moonlight Serenade  ( Serenata ao Luar)

... "Estrelas estão brilhantes ,
     E esta noite suas luzes me põem sonhando,
     Meu amor, você sabe que seus olhos são ...
     Como o piscar brilhante das estrelas?

     Eu trago e canto para você,
     Uma serenata ao luar ,
     Vamos nos desviar de tudo até o raiar do dia ,
     No vale do amor dos sonhos,...
     Você e eu, um céu de verão  !

     Uma brisa celestial beija as árvores ,
     Então não me deixe esperar,
     Venha para mim, delicadamente como na luz de Junho ,
     Que ficarei de pé no seu portão, ...
    
     E cantarei uma música para você ao luar, ...
     Uma música de amor, minha querida ,
     Uma serenata ao luar  ! "

Saudade com muito carinho de todos os queridos e queridas colegas daquele majestoso Baile de Formatura,... e em especial de uma garotinha inesquecível que estava lá... !

-    o    -

Raul de Abreu
Jan - 2010

A MORTE DO VADÃO !


VADÃO , ... VADÃO, ... VADÃOOOOOOO !!!....................


Já era noite, umas 8 horas.

Zé do Mato, " O Grande Amigo de Vadão ",  entrou na sala daquela casa onde residia seu amigo Vadão que havia falecido de um enfarto fulminante na tarde daquele dia.

ZÉ DO MATO

Dizem que Vadão tinha ido à escola buscar seu filho mais novo, o Junior e,... enquanto caminhava pela calçada, viu a Sebastiana, morena belíssima de olhos verdes, cabelos compridos, pernas longas e bem torneadas, um sorriso estonteante, cobiçada por todos os homens e solteiríssima.

VADÃO

TIANA, com um vestido bem colado ao corpo, sapato de salto alto, como se estivesse indo a uma festa, desfilava pela calçada, cumprindo um ritual diário para provocar todos os homens da cidade. Ela andava mexendo todo o corpo vagarosamente, balançando os cabelos longos, sorria enquanto gracejos eram dirigidos a ela.

TIANA

Vadão não resistiu: olhou fixamente para Sebastiana, sorriu, piscou um olho, levou a mão à boca fazendo um gesto típico de quem faz um convite, ... Tiana deu-lhe aquele sorriso de consentimento e Vadão, coitado: caiu durinho morto no chão!

Dizem que enquanto caía, pronunciou suas últimas palavras: “Eita mulher gostosa!” e não se levantou mais.

O caixão do defunto estava no meio da sala, em cima de uma mesa velha. Muitas velas acesas, muitas flores. O pessoal todo da cidade estava presente. Era uma cidade muito pequena: uns 3 mil habitantes.

A viúva, Dona Aninha, toda de preto, rezava com suas comadres ... e chorava inconformada com a morte do marido Vadão.

Dona Aninha

As crianças, filhas das amigas, estavam no quarto do filho mais novo de Vadão, Junior, de 11 anos de idade.

Desorientado, e mal parando em pé, "alto da cachaça", Zé do Mato muito emocionado bradava sem parar:-

- VADÃO... você não pode me deixar aqui assim! Levanta aí, Vadão... vamos lá no Último Gole, o Bar do Bigode, tomar mais uma... A turma toda está lá esperando; eu estava lá até agora quando me falaram que você decidiu partir dessa pruma melhor!


BIGODE

- Que melhor é essa amigão ? Deixar a gente aqui sozinho? E quem é que vai pagar a conta? O Bigode, dono do bar, tá reclamando que “nóis nunca paga a conta, ... que nóis só pendura”... e só você é que consegue dobrar aquele pão-duro duma figa ... e nem sei como é que você consegue... tão falando aí que você tem coisa, amigão! A mulher do cidadão, Dona Angélica,  tá lá chorando,... foi ela que me falou que você se acovardou e resolveu dá o nó nas gravata! (psiu... tá todo mundo desconfiado...!)

Dona Angélica

- Faz isso não! Fica aqui mais um pouco seu filho da mãe! Você prometeu que hoje ia jogar um palitinho com a turma,... E agora, parceiro? A gente não tem mais parceiro; as lingüiça tão lá quentinha esperando; o Bigode até botou uma garrafa nova que foi o cumpadre dele que fez a cachaça !
- VADÃO, .... Vadão, ... Sai desse caixão cara! As moças lá do Barracão tá tudo ouriçada reclamando que “nóis num vai lá bater o ponto faz tempo!” ...vixi, a tua patroa tá ali e num sabe, né? Mas todo mundo sabe, viu Vadão... você é o maior garanhão da cidade,...
Moças do barracão

O Padre, envergonhado com aquele discurso do Zé do Mato que estava mais bêbado do que nunca, chamou o cidadão de lado e aconselhou que não falasse mais nada e que fosse embora porque aquele momento era sagrado e que não poderia ser dito tanta coisa na frente da viúva e dos demais presentes.

O Padre

- Tudo bem, Vadão! Eu vou embora, vou lá tomar mais uma... mas desta vez você me paga, não vou te perdoar não.. justo hoje que eu queria ganhar uma rodada... tinha até moela de frango esperando nóis,... tinha uns amendoim torradinho, até o Zé da Viola tava lá cantando,... e tu resolveu bater as bota. Isso não é coisa de amigo, tu tinha primeiro que ir lá acertar os compromisso... !

Zé da Viola

- Vadão,... Vadão,.... Vadão ! Vai embora não, Vadão. Agora a vida não vai ter mais graça, amigão... o pessoal tá todo lá chorando de raiva porque te pegaram primeiro que esses filho da mãe que tão aqui rezando... Tudo mentira; esses safado vieram aqui pra se vingar, por causa da inveja... até o Delega tá aqui só pra conferir, ... Nem vou falar nada do teu caso com a mulher dele pra não te comprometer viu Vadão, ... é possível que esse safado mande te prender com caixão e tudo!...

- Oi dona Aninha, meus pêsames, viu? Seu marido era um homem muito bão... era como um irmão pra nóis... não tinha companheiro melhor que ele. Ele até que dava uns pulos de vez em quando,... mas não se preocupa não viu dona Aninha... o Vadão era um homem distinto, muito Honesto, bom marido, bom pai, bom amigo, um Santo Homem !

Até a mulherada toda lá do Barracão tá tudo chorando de tão bão que era esse homem. Elas vêm aqui trazer flores só pra consolar a senhora,... viu Dona Aninha ? ! ! !
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Dona Aninha não conseguia dizer nada... Chorava,... chorava,... chorava !

As comadres de Dona Aninha entraram na sala dizendo:

comadres de Dona Aninha

- Olha o cafezinho! Saiu agora. Tem também um bolinho de fubá e um suquinho de uva. Aproveitem, ... que a noite vai ser longa !. A Maria tá trazendo uns sanduichinhos e uns salgadinhos.
- Agora vamos rezar uma Ave Maria e um Pai Nosso pra alma do nosso amigo Vadão seguir em paz. Ele era um homem Honesto, bom chefe de família, bom cidadão, bom filho e bom irmão e cumpridor de seus deveres... mas ninguém conhece os Desígnios de Deus que levou o Vadão dessa para uma melhor!

Entre salgadinhos, cafezinhos, uma piadinha e outra, os Senhores da cidade apenas comentavam as proezas do Vadão e a beleza da viúva,... Coitada,... agora só e desamparada ! E Zé do Mato continuava seu chôro:

- Vadão,... Vadão,... Vadão ! Dá um último abraço amigão e que Deus o acompanhe... e vai preparando o caminho lá pra gente continuar nosso jogo de palitinho !

Enquanto Zé do Mato deixava a casa, as “meninas” do Barracão chegavam para a última homenagem a Vadão. Estavam todas de preto, até com véus e terços nas mãos, flores, imagens santas e em coro rezando e chorando como se fossem as verdadeiras viúvas.

O Padre não sabia o que fazer, olhou para o Delegado, fez um sinal e teve como resposta outro sinal do tipo “não sei o que fazer também!” e assim as “meninas” entraram na sala e foram logo se postando ao lado do caixão rezando ladainhas típicas da ocasião. Dona Aninha chorava mais ainda. Fazer o quê?

Delegado

As comadres sentadas nos cantos cochichavam espantadas com aquela cena e cobravam de seus maridos que tomassem providências. Todo mundo impotente, com medo de mexer com as meninas,... afinal a maioria ali era assíduo freqüentador do Barracão e ninguém queria se expor.

Zé do Mato, que havia voltado à sala com as meninas, abraçando uma delas falou a Vadão:

- Tá vendo só, amigão? Até as nossas amiguinhas vão sentir a sua falta. Cria vergonha logo nessa cara e levanta logo daí pra gente bater um palitinho lá no boteco do Bigode... você nem vai acreditar no que vou falar: “ Tão dizendo aí, que a Tiana tá morrendo de remorso “docê” ter morrido por causa dela e ela fez promessa que se você sair dessa ela vai lá no Bigode pagar uma rodada pra todo mundo!”

Nesse momento, ninguém sabe explicar direito, o caixão do Vadão começou a tremer ! Todo mundo ficou assustado com medo que fosse o fantasma do Vadão, mas,... Vadão começou a se espreguiçar vagarosamente e foi abrindo os olhos sem saber o que estava acontecendo com aquele mundaréu de gente ali na sala assustada, fazendo Sinal da Cruz, gritando o nome de Jesus, Nossa Senhora, Virgem Maria e outros, em completa histeria.

Enquanto todo mundo "morria de medo", as “meninas” pulavam de contentamento:

- Vadão voltou,... Vadão voltou,... Vadão voltou !

Vadão foi sentando no caixão, balançou a cabeça, espreguiçando-se de um longo sono, olhou pro Zé do Mato e gritou:

- E aí pessoal,... tão querendo me enterrar vivo? Eu só tirei uma sonequinha e já estou atrasado pro joguinho de palito no Bigode. Me ajuda aí a levantar, parceiro, e vamos lá pra festa com o pessoal !

Vadão foi saindo de casa abraçado com Zé do Mato e as meninas deixando pra trás todo mundo boquiaberto, espantado, sem dizer uma palavra. Ele tinha sofrido de um mal que ninguém soube explicar, que parecia ter morrido, mas na verdade não tinha morrido!

- Vadão,... Vadão,... Vadão,... seu filho da mãe ! Por que você demorou pra chegar ?
- Pois é, Bigode, aquela mulher é mesmo de matar... !


................................... F I M nº 1 ...........................................

POST SCRIPTUM nº 01 - INFORMAÇÕES GERAIS:

*  O Delegado abandonou sua mulher e foi embora da cidade no dia seguinte,... apaixonado por um Investigador...
*  Tiana pagou as contas no Bigode e "dizem", mas ninguém sabe direito, que ela agora tem um caso com Vadão;
*  Dona Aninha não tirou mais o luto e fez votos de "eterna castidade";
*  Zé do Mato casou-se com Maria Divina dos Anjos, ex-dona do Barracão e atual dona-de-casa, tornou-se beato, não bebe mais e vai ser pai;
*  O Padre, coitado: Santo Homem, ... fugiu com a empregada; ...
*  Bigode continua vendendo cachaça, fritando linguiça, contando histórias e pintando o bigode ... Ah, ... sua mulher, Dona Angélica,  teve um filho - Junior (a cara do Vadão), cujo padrinho é o Vadão (vai saber...); ... e a vida continua, como sempre ! ! !

... Se voce duvida dessa história,... vai lá na cidade e pergunta pro pessoal ! Até eu que escrevi e não acreditava fui lá pra conferir:

*  Tiana era e continua  um tesão de mulher,
*  Vadão tá gordo que parece um porco;
*  E,... o Barracão, ... agora só tem Travestis;
*  Dona Aninha, por trás daquela cara de Santa.... mudou de vida ! Agora ela resolveu "soltar a franga"...

POST SCRIPTUM nº 02  -  AS EXPLICATIVAS INEXPLICÁVEIS :

1. - Dizem que Maria Cabeleireira, uma branquela de cabelos ruivos, e sardenta, por uma questão de ciúme incontrolável de Vadão, encomendou um despacho num terreiro de macumba, de forma que Vadão morresse fulminante se ele viesse a "dar em cima de outra mulher".

Maria Cabeleireira

2. - Acontece que no velório estava presente a Mãe Benedita, que era Madrinha de Vadão e Mãe de Santo do Terreiro do Pai Jucá e mandou desfazer o despacho pra trazer de volta o seu afilhado querido.

Mãe Benedita
3. - Vadão, é claro, ressuscitou. Mas, ... como o Castigo vem dobrado pra quem manda fazer despacho, Maria Cabeleireira foi destinada a viver solteirona pra sempre ! Tá lá com uma vela rezando sem parar...

4. - Na hora que Vadão ressuscitava, o Padre levantou as mãos para o Céu e gritou:

- Milagre! Milagre! Milagre! Oremos Irmãos que nossos pedidos foram atendidos pois duma natureza dessa só quem tem merecimento é atendido ! E o nosso querido Irmão Vadão, Um Santo Homem voltou !

Todos os fiéis presentes ajoelharam-se e puseram-se a rezar ... enquanto Vadão saía do caixão e ia embora pra gandaia com seus amigos!

.........................    F I M finalmente !     ......................

(dedico essa "brincadeira" a um grande amigo que tinha o apelido de "QUEIXINHO". Ele era o maior "pé-de-valsa" da cidade e todas as garotas ficavam "malucas" pra dançar com ele. Era um bom sujeito, sempre animado, bem humorado, cuca fresca... o tipo do cara que a gente tinha prazer de ter como amigo e irmão camarada. Faz uns 40 anos que nada sei sobre ele).... E, com certeza, Vadão tinha admiração por Queixinho que de verdade era UM SANTO HOMEM ! ). 


Vadão, quando era jovem até que era bem bonitinho... olha aí a foto que consegui dele:
Vadão quando era jovem !


O CATECISMO


José Augusto, filho único de Seu Rodrigues e Dona Zazá, era o aluno mais aplicado e mais inteligente da classe !


Recebia de seus pais uma educação invejável: estava sempre bem arrumadinho, limpinho, cheirosinho, falava mansinho, cabelinho bem cortadinho, e uns óculos fundo-de-garrafa pra ninguém botar defeito (era a única coisa errada no garoto) !

Era o preferido de todos os professores, pois era muito estudioso, caprichoso, educadíssimo e levava sempre presentinhos a todos !

Ia completar 12 anos e fazia o cursinho de catecismo pra fazer sua primeira comunhão. Seus pais já anunciavam uma grande festa para esse grande dia.

Os pais eram fazendeiros muito prósperos, de uma família muito tradicional e centenariamente proprietária de fazendas de gado e café.

Diziam as más línguas que eles viviam fazendo festas suspeitas ! Vai saber...

Guto, como era carinhosamente chamado, não tinha muitos amigos, pois a maioria dos garotos não vinha de famílias abastadas e não tinha os recursos que ele fartamente desfrutava.

Ele chegava de carro todos os dias na escola. O Choffeur, Seu Benedito, trabalhava para a família desde que nasceu visto que seu pai também já era empregado dos avós de Guto.

Seu Benedito vinha com uniforme, chapéu de choffeur, botas de pelica,... tudo que um bom choffeur tinha direito em uma família de ricos !

Quando chegava à escola, estacionava o carro justamente onde as meninas estavam aguardando ansiosas pra ver Guto. Abria a porta para o garoto, estendia-lhe a mão para ajudá-lo a descer e estava sempre, nessas horas, com o boné embaixo do braço em posição de respeito.

Uma beleza ! Ninguém tinha aquela mordomia !

As garotas, com suas saias xadrez e boina combinando, meias ¾, ficavam olhando Guto descer do carro, uniformizado com aquele terninho impecavelmente alinhado, bem passado, engomado e perfumado... Ahhhhhhhhhhhhh,... que garoto lindo e futuro bom partido !

Embora não disputasse da simpatia dos garotos que morriam de inveja, ele era adorado pelas meninas. Mas, Guto, devido à sua rígida educação, era um garoto dócil e muito tímido. Morria de medo das meninas e gostaria muito de ter os garotos como seus amigos pra ir jogar bola com eles, brincar de qualquer coisa como qualquer garoto normal.

Não sabia o que fazer pra conquistar a amizade deles. Só desfrutava da amizade de outros poucos garotos de família muito abastadas, de narizes muito empinados, diferentes dele em comportamento, assanhados com as garotas as quais, pelo poder, assediavam e eram bem sucedidos.

Um dia estava sozinho em sua casa, a mansão que ficava numa quadra inteira no centro da cidade, perto da igreja. Seus pais viajaram e deixaram a governanta incumbida de tomar conta de Guto e, Benedito, para levá-lo, naquela semana, aos rotineiros lugares: escola, igreja, casa dos tios e retorno para casa !

Guto entrou no quarto de seus pais ! ...

O quarto era imenso. Tinha uma televisão colorida embutida, enorme, em móvel de jacarandá importada diretamente para eles.

Olhou o imenso armário no closet... Tudo arrumadinho e brilhando impecavelmente. Abriu a porta do armário de roupas e viu estranha mala... Não resistiu e abriu.

Dentro da mala havia uma coleção enorme de revistas de um autor chamado: CARLOS ZÉFIRO - o mestre dos quadrinhos eróticos do Brasil, conhecido por quase todo garoto de “mão peluda” entre as décadas de 50 a 70.

Carlos Zéfiro publicava uma revista de quadrinhos eróticos com deliciosas aventuras pornográficas em traços simples e sem cor, mas que eram o terror das mães conservadoras, com seu conteúdo que trazia sexo sacana e putarias de todo tipo (a alegria da molecada).

Os quadrinhos eróticos de Carlos Zéfiro foram amados e odiados. Arte e Pornografia. Hoje, sua obra é aclamada por diversos artistas e considerada “Cult”.

Não somente essas revistas, mas Seu Rodrigues, pai de Guto, tinha uma coleção pornográfica enorme de revistas importadas, baralhos, objetos e diversos artigos interessantíssimos para “festas de casais” !

Ele não entendeu nada daquilo, apesar de que, claro, viu logo os desenhos das revistas de Zéfiro, coisa que nunca tinha imaginado existir e ficou boquiaberto vendo aqueles traços de mulheres nuas com seios fartos e sexo com uma vasta cobertura de pelos...

- Pelos? Não sabia que mulheres tinham pelos! Minha mãe acho que não tem !

Pegou logo um exemplar da revista – A CARONA, que na capa estampava a foto de uma mulher à beira da estrada e um caminhão – FNM estacionando (que todos chamavam de FENEMÊ).

Na capa da revista, no rodapé, alertava: “EXPRESSAMENTE PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS”.

No cabeçalho estava registrado: “ Aquela garota parada à beira da estrada me fez parar o caminhão. Era tão gostosinha que bem merecia o que queria: UMA CARONA ! “

Ele ficou assustado enquanto abria a revista. Havia gravuras e textos eróticos...

Foi correndo para o banheiro, fechou a porta, colocou aquele imenso par de óculos e começou a ver e rever gravura por gravura e a ler texto por texto. Não entendeu quando percebeu que estava ficando excitado; aquilo nunca havia acontecido, pois, afinal, nunca tinha visto e nem ouvido em casa comentários sobre sexo já que seus pais eram sempre de uma lisura irretocável !

Dia seguinte, após a aula da escola quando ia para a aula de catecismo na Igreja, ele levou a Revistinha de Zéfiro dentro do livro de catecismo.

Quando chegou à Igreja, chamou o José Carlos, cujo apelido era Tico-tico, um garoto que até que gostava um pouco de Guto.

- Olha só o que achei em casa, Tico-tico!
- Nossaaaaaaa ! Você tem um Catecismo ?
- Tenho sim,... mas estou falando dessa revistinha que achei...
- Sim, essa mesma. Essa revistinha chama-se Catecismo...
- Catecismo? Mas aqui não tem nada de aula de religião...
- Mas é Catecismo. Todo moleque da cidade faz qualquer coisa pra ter um Catecismo desses...
- Ah, é? Eu não sabia. Isso aqui é Catecismo? E esse livro de aula de Catecismo?
- Esse aí é Catecismo da Igreja... Mas essa revistinha é um Catecismo que a molecada leva atrás da moita pra “bater umas” em grupo...
- Bater umas em grupo? O que é isso?
- Você nunca bateu uma?
- Bateu o quê ? Não sei....
- Uma punheta, vendo catecismo!
- O que é isso?
- Olha, vamos fazer o seguinte, Guto: depois da aula de Catecismo, a gente vai lá na casa do Zé Espingarda e você vai ficar sabendo. Mas isso é um segredo, você não pode contar pra ninguém, tá bom ?
- Tá bem ... !

Tico-tico já avisou logo a molecada que Guto tinha um Catecismo e que iria levar na casa do Zé Espingarda a tarde. A molecada ficou toda alvoroçada...

- Seu Benedito, o Sr. poderia me levar na casa do Zé Espingarda hoje depois do almoço?
- Sim Sr., Seu Guto. Mas o que o Sr. vai fazer lá?

Guto exitou e lembrou-se da recomendação do Tico-tico pra não contar pra ninguém. Então resolveu inventar uma desculpa...

- É que hoje temos que estudar o Catecismo...
- Ah! Sim Senhor! Vou levar o Senhor sim!

Ele almoçou com uma ansiedade daquelas, pois queria descobir o que era “bater uma” !

Quando deram 2 horas da tarde, ele já estava preocupado e foi descendo as escadas do andar superior da casa, onde ficava seu quarto, para encontrar Seu Benedito.

- Ah, Senhor Guto... já estou pronto para levar o Senhor!

Assim foram até a casa do Zé Espingarda. Quando lá chegaram, Seu Benedito esboçou um largo sorriso como nunca havia feito antes, pois viu logo a garotada toda entusiasmada esperando Guto ! ... Que mudança !

- Hei Guto, estamos esperando você pra estudarmos o Catecismo! Que bom que você já chegou... !

Foram até o quintal da casa onde havia uma casinha de depósito de materiais do pai de Zé Espingarda. Guto estava muito surpreso, pois até aquele dia nunca tinha recebido tanta atenção e carinho daqueles moleques. Ficou todo empinadinho de contentamento!

- E aí, Guto? Você trouxe o Catecismo?
- Não, eu deixei lá em casa. Eu trouxe só essa revistinha aqui...
- Isso mesmo ! É esse Catecismo aí que estamos querendo ver ! Vamos começar a leitura já !

A molecada sentou-se no chão. Todo mundo tirou o calção e imediatamente nomearam Tico-tico pra fazer a leitura, exibindo os quadrinhos para todos...

- Mosqueteiros: De arma em prumo... Vai começar a festa: todo mundo com o pinto na mão “batendo uma bem batida” pro nosso amigo Guto aprender o que é um Catecismo! E hoje vamos bater uma com o pensamento na Martinha, a gata mais gostosa da cidade !

Guto ficou assustado com tanto moleque ali pelado. Não sabia o que fazer e tirou a roupa também. Afinal, o que ele mais queria na vida era ter amigos e deixar aquela vida tediosa e monótona de “filhinho de papai” !

Botou o “pirulito” pra fora, observou bem os novos amigos e começou a copiá-los numa “batida celestial” ! ... E pensou na Martinha que também era seu maior desejo !

- Uau ! Que delicia... ! Isso aqui que é “bater uma” ? Eu tenho lá em casa umas 50 revistinhas dessa... ! E tem outras com fotografias coloridas que eu descobri no quarto do meu pai !

- Guto, a partir de hoje você é o nosso maior amigo! ... Agora, todo dia você vem aqui que vamos Estudar o Catecismo e “bater umas” até o “prego virar alfinete” !

Guto voltou muitas vezes e seus amigos foram testemunhas do dia em que ele “virou homem” jorrando o seu primeiro orgasmo.

... “SANTO SENHOR CARLOS ZÉFIRO – O PROTETOR DA MOLECADA !”

Guto nos dias seguintes levou todas as revistas para os novos amigos conhecerem e, com isso, passou a ser considerado por todos como o melhor amigo a ponto de convidá-los sempre para freqüentarem sua casa e desfrutarem daquela linda piscina.

As garotas começaram também a freqüentar sua casa, para alegria de Seu Rodrigues – que sabia muito bem o que tinha acontecido.

Volta e meia Guto levava todos, inclusive as meninas, para o enorme Galpão onde ficavam os carros, para estudarem com muito afinco e aplicarem em aulas práticas os grandes ensinamentos do Catecismo... !

E foi assim que Guto, a partir daquele dia, chegava todo dia na escola com um sorriso largo estampado no rosto e era recebido aos abraços calorosos de toda molecada, deixando as meninas malucas por ele...

... Bem, não foi à toa que ele ficou sendo conhecido tempos depois ... e respeitado por todos,... como “O Rei do Galinheiro !”

Hoje, Guto é um homem formado, próspero empresário, bem casado e homem sério !

Mas, em sua vasta sala, naquele maravilhoso prédio de 20 andares da Capital, tem uma passagem secreta para uma grande estante onde ele guarda um GRANDE TESOURO – A coleção completa dos Catecismos que adquiriu durante toda sua vida, com as assinaturas de seus inesquecíveis amigos e, ainda, um quadro que lhe ofertaram:

... “Ao amigo Guto, O CAMPEÃO DAS BATIDAS, a lembrança de seus amigos da infância !”

Desde que se mudou para a Capital, Guto faz um encontro todos os anos com seus amigos. Nessa data eles selecionam um Catecismo e lêem em voz alta, como no princípio, fazendo “alguma homenagem” àquelas garotas que foram suas fantasias enquanto crianças:

... Aninha, Rosinha, Soninha, Clarinha, Mariinha, Cicinha, Cristininha, Martinha....

Esse ano, o Catecismo selecionado foi “ FRUTOS PROIBIDOS ” que será lido pela Martinha – que sempre foi e continua sendo a garota mais desejada da cidade.

Várias amiguinhas da época também estarão presentes, além dos marmanjos da turma do “bater uma em grupo” da casa do Zé Espingarda.

A Martinha mandou avisar que nesse encontro, em homenagem aos 20 anos de nossos encontros e às tantas “batidas” que foram feitas com o pensamento nela, ela vai satisfazer os desejos da “molecada” lendo NUAZINHA fantasiada de "MAMÃE NOELA" todo o Catecismo “  FRUTOS PROIBIDOS  ” !.

Martinha fantasiada de Mamãe Noela

Bem,... pedindo licença aos leitores, eu já vou me despedindo porque não sou de ferro e fiquei a vida toda pensando na Martinha e sonhando com uma oportunidade dessas. E essa, ... eu não vou perder por nada desse mundo ! ... (depois eu conto o restante).

Ah, esqueci de dizer que o Encontro vai ser hoje, ... daqui a pouco ! Putz ! ... e eu sou o Tico-tico !

TICO-TICO




LA CUCINA DE ZIA NORMA !





LUCIANO PAVAROTTI (1935 - 2007)  -  FUNICULI FUNICULÁ

Logo cedo, pela manhã, já se podia ouvir daquela casa o rumor da “dolce vita de una famiglia italiana ” na tranqüila cidadezinha !.

- Mafaldinhoooo, ... ! Ô Mafaldinho ! Me põe logo tuo uniforme e me vai logo pra scuola per studare.
- Va via, mamma... va via ! Non me rompere le bale logo cedo,... cazzo !
- Va via tu figliori de un cane. Me vai correndo pra scuola che tuo pappa já foi ao lavoro!

Era muito engraçado, muito alegre, muito feliz, viver ali pertinho da “famiglia” da Dona Norma. Uma grande salada de idioma... (risos) !

Ela era uma italiana nascida na capital paulista – no Brás, e tinha traços físicos de uma linda napolitana, como lembra bem aquela atriz que fez o papel de Beatrice no filme “O Carteiro e o Poeta”, filmado na Bahia Napolitana, em especial em Procida e Ischia.

Dona Norma tinha um humor incrível: sempre sorrindo, sempre solicita, sempre pronta a dizer uma palavra carinhosa a todas as pessoas que por ali passavam, em especial as crianças que freqüentavam seu lar e eram amigas de seus filhos.

Eu era um garoto privilegiado, pois não somente era amigo de seus filhos, mas era vizinho de casa e meu quarto ficava a poucos metros da copa onde a “famiglia de Dona Norma” tomava todas as refeições.

Eu ficava ali na minha cama, quietinho, gargalhando, deliciando quando eles estavam tomando café, almoçando, jantando, ou qualquer outra coisa, pois era muito divertido ouvir tudo que diziam.

- Puta Merda, Mafi, non mi fala bobage na mesa !
- Caspita, non mi rompere le bale...!

Eu não entendia nada do que falavam em “italianês” (italiano com português), mas, até hoje, 50 anos depois, cada vez que exclamo alguma coisa, em qualquer lugar, digo logo:


“Puta merda Mafi”...

 ... e, quem ao meu lado ouve não deve entender nada, mas, é minha forma carinhosa de brincar com as pessoas, numa saudosa lembrança daqueles dias maravilhosos que convivia diariamente com aquelas  que sei que Deus colocou em nossos caminhos, em nossa vida, para tornar tudo mais bonito e mais agradável.

Meus filhos aprenderam algumas dessas expressões e, como eu, repetem sempre por onde andam de tal forma que sei que passarão adiante por muitos anos para muitas pessoas, que também levarão adiante, pela simples ternura, sem mesmo conhecerem o motivo e origem de sua história (a minha história).

Dona Norma fazia uma pizza maravilhosa. Quando eu sentia aquele cheirinho maravilhoso, era como em um filme de desenho animado:

... “o cheiro caminhava pelo ar vagarosamente até meu quarto e me levava levitando até a casa de aquela delicata signora ! ”.

PIZZA DA ZIA NORMA

- Oi Dona Norma, ... tudo bem? Ah, eu vim aqui pra brincar com o Mafaldinho.... Ele está ?
- Seu malandro, você veio aqui por causa do cheiro da minha Focaccia !.
- Focaccia? Que que é isso? A Senhora não está fazendo aquela deliciosa pizza cheia de tomates?
- Estou sim. Mas é uma focaccia. Você quer experimentar um pedacinho?
- Não, Dona Norma,... eu vim apenas ver se o Mafaldinho estava...

Dona Norma, sorrindo, não perdeu tempo e foi logo colocando um pedação daquela “Pizza Focaccia” em um prato e eu, mais que depressa, engoli aquela delicia em poucas mordidas esperando o repeteco que vinha em seguida.

- Ah, você já comeu tudo? Puxa, estava com fome mesmo... na tua casa não tem comida? ... hahaha !!! Agora você vai comer a sobremesa. Fiz uma gelatina de morango que está uma delicia !

Ela deu-me um potinho pirex (bem pequeno) com gelatina de morango, geladinha. Uma delícia! Mas, ... sorrindo sem conseguir disfarçar, deu-me uma colher de arroz, bem grande, que não cabia dentro do potinho ... !

- Dona Norma ... ! Como ... ??? !!!
- Ha, ... ha, ... ha ! ( lol ) ... você não consegue comer com essa colher ?... !

Eu nem ficava com vergonha por causa das brincadeiras da Dona Norma e, para recompensar tanto carinho dela comigo, eu levava sempre um maço de Salsões que tinha no canteiro de minha casa, pois ela adorava. Levava também os brotos de abóbora, que chamávamos de “cambuquira”, pois ela fazia vários tipos de pratos. Algumas frutas do quintal de casa, ... outras verduras,... Era o mínimo que eu poderia fazer pra demonstrar o quanto eu ficava feliz com o carinho que recebia daquela senhora.

Não posso esquecer as brincadeiras que ela fazia comigo e com as demais crianças, sempre bem humorada, mas sempre com muito carinho com todos.

" Puta merda, Mafi, ... O tempo passou. Caspita !"

 Não vejo Dona Norma há tantos anos. Nem seus filhos, seu marido que sei que já “habita o Oriente Eterno”, ... mas sempre estiveram tão presentes em minha vida, nas minhas queridas lembranças que as vezes sinto-me levitando em busca daquele saboroso aroma daquela cozinha onde, além das deliciosas comidas que ela fazia, eu sempre sentia uma  alegria tão grande, harmonia, paz e muita vontade de viver sorrindo. Estou com saudade !

“ Puta merda, Mafi ", ...

Se pudéssemos gravar o tempo e participar dele a cada momento que bate uma saudade aqui no peito, ... eu queria tanto poder dizer o quanto foram importantes em minha vida,... naqueles momentos tão maravilhosos que ficaram e estão guardados com muito carinho aqui no meu cantinho do lado esquerdo ...

...aquele vinho Chianti, ... aquele queijo gorgonzola,... a TV quando chegou à cidade,... a caminhonete onde saboreávamos ao vento no rosto,... as pescarias,... a pizza focaccia,... o Mafaldinho cantando,... as festas de aniversário,...

Que saudade !

Há uma musica "speciale" , entre tantas outras, que me transporta sempre em uma lembrança gostosa desse tempinho cheio de encantos:

... Puta merda, Mafi: nom mi fai piangere de saudade ! Puta merda, Mafi !
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Raul Ramos Neves de Abreu
            19 / 01 / 2014