quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

OS ANÉIS DO UMUARAMA




Naquele dia, havia uma grande euforia na cidade motivada pela vinda do grande cantor de Rock – o Rei Roberto Carlos.
Os rapazes com cabelos compridos, calça Lee desbotada, anéis de brucutus nos dedos, sapatos mocassin "La Pisanina” e sem meia. As garotas com pulseiras, colares (todos de brucutus)!

Noite anterior uma corrida desenfreada do povo todo às ruas, em busca dos tais “brucutus” - que nada mais eram que uma pequena e simples peça metálica cromada do esguicho de água dos carros. Raro era encontrar ainda um carro que já não tivesse sido “surrupiado”. Era o fetiche do momento!.

Roberto Carlos com seus dedos cheios de Brucutus... e os donos dos veículos loucos de raiva!

Consegui pegar uns 2 ou 3 brucutus. Uma semana depois a moda perdeu a graça e joguei tudo fora.

Saí do colégio por volta de meio-dia e, como de costume, fui rápido para a Praça XV onde as mocinhas do Colégio Auxiliadora iriam desfilar por alguns minutos antes do almoço. Lá em frente das Lojas Americanas ficávamos até a 1 hora da tarde paquerando aquelas lindas garotas, todas uniformizadas daquele tradicional colégio das Freiras.

Na Praça XV (observe que estou falando da cidade de Ribeirão Preto e do ano de 1965) estava o majestoso e imponente Theatro Pedro II, além das Choperias "Pinguin" e "Lanches Paulista".

Encontrei minha turma de sempre: Wilson, Reginaldo Anjinho, Marquinhos filho do Seu Álvaro o Benetti, irmão daquela linda Márcia, o Nakaratto e o Leopldo .

O Wilson era gordinho e, apesar dos 15 ou 16 anos de idade, tinha um “projeto de bigode” que adorava exibir (acho que passava titica de galinha pra crescer mais rápido). Trabalhava com o pai dele numa loja de pneus. Não sei onde anda.

O Reginaldo não era muito de falar mas estava sempre sorrindo atrás de um par de óculos fundo de garrafa. Ia fazer Medicina. Hoje é médico, seu apelido era Anjinho.

O Marquinhos era o "crânio CDF" da turma, apesar de muito bagunceiro e namorador. Queria ser Engenheiro. Fez Engenharia em Campinas e por lá ficou, mas foi vitima fatal em um acidente automobilístico em meados dos anos 70.

O Benetti – grande Benetti, além de um ótimo goleiro, tinha uma irmã lindíssima - a Márcia , por quem eu era gamadão. Ele também ia fazer Medicina. Não sei o que aconteceu com ele.

O Nakaratto, brincalhão, super bem humorado, era filho de um açougueiro famoso na cidade. Queria ser Engenheiro e formou-se Engenheiro. Encontrei-o recentemente após 37 anos. Continua do mesmo jeito, sempre sorrindo.

O Leopoldo, sempre agitando a galera... e um dia foi um dos 70 exilados do período militar. Ele queria ser político. É vereador na cidade há pelo menos uns 6 mandatos. Não mudou nada.`É o único da turma que vejo vez em quando e ainda somos amigos.

Sou o bonitão agachado de camisa xadrez, os outros estão por aí

Ah,... você deve estar se perguntando sobre o título dessa história que na verdade não tem muita coisa a ver: Os Anéis do Umuarama. Mas trata-se de um período maravilhoso quando os amigos encontravam-se para brindar apenas a grande alegria de viver e de serem amigos !

Umuarama é uma palavra indígena em tupi-guarani, que quer dizer “ Lugar ensolarado, alto, de bom clima, para encontro de amigos” ou simplesmente “Reunião de Amigos”!.

Havia na mesma quadra das Lojas Americanas, na rua anterior, um Hotel de nome UMUARAMA, que eu jurava que era umas duas vezes maior que o edifício do Banco do Estado de São Paulo - na capital . Era o Hotel de Luxo de Ribeirão Preto e, se comparado aos atuais, poderia ser classificado como Hotel 5 Estrelas. Seu formato lembrava o Buildind Empire State de New York, embora apenas de 12 andares de apartamentos e mais 3 andares da torre onde situavam-se os anéis luminosos.

Os quartos eram muito grandes. Os serviços na época eram estilo Europeu Clássico e lá só se hospedavam artistas, ricos fazendeiros e ricos empresários.

No topo do edifício, havia 3 anéis luminosos coloridos que, acesos, de longe lembravam um Arco-Íris. Todas as pessoas da cidade sentiam prazer em admirar aquela coisa linda brilhando, já que na época os luminosos comerciais ainda eram novidade.

Marquinhos e Wilson, o Gordo, eram dois grandes “caras-de-pau”. Não podia passar uma garota que logo faziam gracejos e,... o engraçado disso tudo (enquanto eu morria de vergonha) é que elas gostavam dos gracejos e até paravam pra conversar.

Eu era novo na cidade. Fazia 1 ano que estava lá. Posso afirmar que, apesar de ser “estrangeiro” eu era bem requisitado pois, afinal, não era comum um garoto loiro de olhos azuis dando sopa naquele pedaço.

Justamente naquele dia que Roberto Carlos ia fazer um show no Ginásio da Cava do Bosque, ... passou naquela calçada a garota mais linda que eu poderia imaginar: loirinha, pele rosada, olhos verdes, saia azul abaixo do joelho (Colégio Auxiliadora), blusa branca e gravatinha azul marinho !

Ah... mamãe do céu! Que menina linda!

Carla

Até então meu coração não tinha ainda dado tantos pulos e eu ali gago sem saber o que dizer enquanto aquele “filho dum pai desconhecido” do Wilson, parecendo "Ave Maria", todo cheio de graça “dando” em cima dela:

- Oi Carlinha, esse aqui é o Abreuzinho, sobrinho do professor Abreu ...
- Oi Abreu, muito prazer... eu sou a Carla.
- O...o...o..oi Ca...ca...ca... Carla! Prazer é todo meu!

Ela foi embora com um sorriso todo meigo e tímido e eu fiquei sem saber o que falar, olhando ... olhando.... olhando!. Quando ela ia virar a esquina, parou e deu uma olhadinha pra trás. Wilson imediatamente botou fogo na história fazendo a maior gozação em cima de mim.

Naquela época, apenas um olhar de uma garota e o interesse de um coitado de um tímido como eu, eram suficientes pra uma semana ou mais de gozação no colégio. Wilson me disse que haveria uma festinha a tarde na casa da Graça, uma garota muito boazinha, educada e filha do prefeito.

Era minha amiga mas não tinha me convidado. A festa era de aniversário e seria a tarde porque a noite teria o show do “Homem dos Brucutus”e eu não via a hora pra ir naquele aniversário!.

Que agonia a espera!

Graça morava numa casa enorme na esquina da Praça XV, com um belo jardim e um grande alpendre (se você não sabe o que é alpendre, procure no dicionário ou pergunte para a sua avó).

Eu iria ver de novo aquela linda garota !

Cheguei na praça, no lugar combinado, às 3 e meia da tarde. Acho que fiz buraco na calçada de tanto que andei de lá pra cá de tanta ansiedade. A turma chegou um pouco tarde: devia ser umas 4 e meia da tarde, “uma eternidade de demora”!

Entramos na casa da Graça. Era minha primeira vez. Fui logo cumprimentando-a e também aos seus pais. Dei-lhe um abraço e um beijo (fraternal sem más intenções), como havia aprendido com meus pais. Meus amigos caíram todos na risada: não era o costume do pessoal de Ribeirão Preto. Eu era mesmo o caipira ali... fazer o quê, né? Por outro lado, o único de olhos azuis era eu e... mesmo de boca fechada, fazia o maior sucesso! Conversando então, achavam-me diferente, uma gracinha! (e eu ali com uma paixão daquelas pela Carla que ainda não tinha aparecido).

Quase 5 horas da tarde apareceu a Carla.

Que maravilha! Ela também devia estar muito ansiosa para me ver pois entrou na sala olhando pros lados, procurando algo e,.... quando me viu, deu um sorriso tão lindo que parecia que eu estava viajando por entre as nuvens em uma nave dos anjos!

A música suave tocando e não resisti à tentação de tirá-la para dançar! Alain Barriére cantando “ Ma Vie”, musica essa que só poderia ter sido colocada pela vontade do destino. Eu ali segurando o corpinho lindo da Carla, todo cheio de suavidade, sensualidade, inocência, ingenuidade.... Fomos nos aproximando aos poucos enquanto a sala na penumbra de uma “luz negra” reluzia nossas peças mais claras.


Eu e Carla dançando " Ma Vie "

Não consegui dizer uma palavra! Eu estava de rosto colado e vez em quando fitando aqueles olhos verdes tão lindos... nem percebemos a musica parar e continuamos ali abraçados, com a sala toda observando.... até que nossos lábios se encontraram e acordamos com uma saraivada de urros, aplausos, brincadeiras..... e o medo do que iria dizer o pai dela se soubesse! Wilson, filho da mãe, então gritou:

- Vou contar ! Vou contar !

Ela ficou assustada. Estávamos ainda de mãos dadas, sem respiração, olhando-nos, apaixonados...

Do mesmo jeito que ela entrou naquela sala, foi embora distanciando-se ...
Saí até o alpendre, sem perceber todo o barulho que faziam lá dentro e avistei ali na esquina o pai de Carla vindo buscá-la em seu carro, um Aero-Willis que nunca saiu de minhas lembranças.

O carro indo embora virando a esquina, umas 6 horas da tarde, já anoitecendo, os últimos raios do sol já se pondo, uma brisa vindo das árvores da Praça XV e o Hotel Umurama lá no alto acendendo suas luzes – “Os Anéis do Umuarama”!.

Olhei à direita, lá no fundo, bem longe, onde fica a Faculdade de Medicina e avistei aquela bola enorme de fogo do Majestoso sol, escondendo-se vagarosamente por trás das montanhas, como que me cumprimentando por aquela jornada !

O Sol de Ribeirão

Logo ali na minha frente os Anéis do Umuarama brilhando tão intensamente, como se fossem uma nave do céu convidando-me a um passeio pelo Paraíso!.
Foram apenas alguns minutos que pude desfrutar de tamanha felicidade na companhia daquela princesa, mas foram intensos e serão eternos. Jamais deixaram e deixarão de habitar meu coração!
Mudei-me meses depois para São Paulo e não sei o que aconteceu com Carla ... !
Cada vez que vejo luminosos brilharem pelas cidades, vem aquela brisa gostosa sussurrar aos meus ouvidos:

... Os Anéis do Umuarama ...  !

-    o    -

Raul de Abreu
jan - 2010

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