sábado, 11 de abril de 2015

À SOMBRA DAS TAMAREIRAS

Despediam-se da conterrânea, proferindo a oração póstuma na língua pátria, homenagem emocionante na hora derradeira.
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Embora a tristeza do momento, uma beleza solene envolveu o ato, pois, mesmo na presença da morte, a expressão comovida de lágrimas puras, quase como uma prece a envolver os sentimentos sublimando o pranto.
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Kasma, naquela tarde, partia para o seu merecido repouso deixando a comunidade árabe e todas as demais pessoas moradoras daquela cidadezinha muito desconsoladas.
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Kasma e Abud eram Libaneses.
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De sua família estavam presentes seu marido Abud e os filhos Salomão, Kalisto, Sarah, Jorge, José, Sada, Clarita, Elias e Assima (também conhecida como Sumeia). Entre sons estranhos de uma língua estranha, a expressão da tristeza no aceno de adeus, poesia dos que ficavam àquela querida que partia.
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Olhos marejados em tantas lágrimas...
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Não se entendiam as palavras, mas a alma dos presentes podia traduzir na entonação, o sentimento, a sinceridade e o carinho de todos que ali manifestavam.
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Estranho,... a poesia declamada nas lágrimas transformando-se em palavras !.
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O céu se transformou de repente. Entardecia, quase noite. Tudo mudando com o caminhar silencioso, a brisa como um doce afago, os últimos raios solares em tons tão serenos.
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Pensamentos voltados a lugares distantes, misteriosos, gélidos nas noites ao amanhecer e causticantes naquela imensidão do deserto, contrastes dos contrastes, como em um sonho mergulhado nas maravilhosas estórias do Saara !.
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Véus sobre o rosto, ela havia se transportado do longínquo por artes do destino caprichoso, aos ventos tropicais de outra terra.
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Aqueles mistérios do Oriente, de camelos e aragens quentes, do frescor das águas de Oásis à sombra de Tamareiras, das areias desconhecidas, aqueles contos de noites em que o Califa desposava gentilmente a filha do Sultão, ...  jaziam lá no passado que se transformou em um presente de estrelas majestosas em uma poesia sutil diante da cruz simbólica do sul ocidental.
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Salaam Aleikum... ! Salaam Aleikum...
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Orações no idioma árabe que poucos entendiam...
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O doce aroma de tâmaras no cicio das tamareiras... O deserto, a areia, os véus e seus mistérios,... o caminhar silencioso de volta às casas daqueles todos entristecidos da pequena cidade, todos voltados num só pensamento e em um só nome: Kasma !.
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Nas orações nos idiomas não conhecidos, poder-se-ia entender o sentido de um poema choroso declamado tão vibrante:
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..Tu, que despertaste à luz das Mesquitas e te viste crescer à luz de uma terra diferente;
..Tu, que ouviste falar das noites mais lindas, de encantos, mistérios e lendas férteis de ...imaginação;
..Tu, que acordaste lá e que a sorte te fez dormir aqui;
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..Ouve:
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..Onde descansas, Kasma, embora em lugar tão diferente, ouvirás, como consolo, a voz da ..Pátria distante, na poesia derradeira – como se a natureza pranteasse, também, a ..despedida, quando a noite velar por teu último sono, à luz do Cruzeiro do Sul, de um ..murmúrio de Palmeiras e lamentos de brisa – algo que então dirá aos teus ouvidos:
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....- Saudade, gosto tão doce,
....- Saudade tão roxinha,
....- Como tâmara fosse,
....- Da minha querida terrinha !.
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(esta crônica foi escrita por meu pai, BOLIVAR AMARAL ABREU, em homenagem ao passamento de Sra. Kasma em Outubro de 1963, na cidade de Tambaú - interior do estado de São Paulo - Brazil.  Foi na ocasião publicada no  Jornal O TAMBAÚ.).
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Raul de Abreu Neto
11 abril 2015

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