domingo, 19 de janeiro de 2014

O BAILE DE FORMATURA


O tempo passa e acabamos não percebendo que tantas coisas bonitas aconteceram em nossas vidas !


Carly Simon  -  Moonlight Serenade

Quantos planos, quantos sonhos, quanta energia conduzindo nossos pensamentos, os inocentes desejos de amar, as serenatas, as festinhas, ... os amigos que não vemos mais e nem sabemos onde foram parar, se ainda "habitam" esse plano ou se já "mudaram-se" para o "Oriente Eterno"...

Era uma vez em uma cidadezinha muito bonitinha, onde todos se conheciam... !

Havia uma grande ansiedade para a chegada da hora do "Grande Baile de Formatura" dos alunos da 4a. série ginasial do " GINÁSIO  ESTADUAL  PADRE  DONIZETTI  TAVARES  DE  LIMA " da pequena e simpática cidade de Tambaú, no interior do estado de São Paulo !

Quanta emoção !

A Grande Orquestra "LAÉRCIO DE FRANCA" tinha sido contratada para o grande evento. E a música escolhida para a "entrada triunfal " e apresentação dos formandos era MOONLIGHT SERENADE !

O convite, tão simples mas tão valioso, que ainda guardo após 45 anos, com muita saudade daquele dia e de todos aqueles que fizeram parte daquela Grande Festa !









O Convite informava que o Baile de Formatura seria no dia 23 de janeiro de 1965, porém, por problemas de datas da Orquestra o mesmo foi antecipado para o dia 29 de dezembro de 1964. Essa antecipação proporcionou uma alegria ainda maior pois as familias dos formandos ainda permaneciam na cidade pela data do Natal e também para a comemoração da passagem para o Ano Novo !

Ao Som de MOONLIGHT SERENADE, os formandos foram anunciados um a um ! E entraram vibrantes, sorridentes, não contendo a alegria da vitória de uma especial etapa. Cada um com o seu par de "Padrinho" ou "Madrinha" e iam postando-se em seus lugares no salão de baile para o grande momento da "Valsa dos Formandos" com músicas de Strauss !

- " Atenção Senhoras e Senhores:  Este é o grande momento dos formandos, iniciando com a VALSA VOICES OF SPRING  !"

André Rieu  -  VOYCES OF SPRING 
Maravilhoso ! Inesquecível  ! Emocionante... ! Eu estava dançando com aquela garota linda, sorridente, que me olhava com um olhar tão angelical que em meio a muitos sorrisos, senti o coração pulsar de paixão, de emoção, de alegria,... Estou sempre sonhando com aquele momento tão sublime e lembrando aquele doce sorriso.

A vida nos reserva momentos tão maravilhosos e quem por eles passou há de trazer sempre guardado no coração um sentimento eterno de alegria e realização !

Ah... que saudade ! Há 45 anos atrás ... e ainda consigo ouvir o som maravilhoso daquela linda música que dancei com a garota mais maravilhosa da cidade. Saudade daquela menina tão linda, tão cheirosa, tão suave, tão meiga, tão delicada,... tão...


O Poema de Moonlight Serenade  ( Serenata ao Luar)

... "Estrelas estão brilhantes ,
     E esta noite suas luzes me põem sonhando,
     Meu amor, você sabe que seus olhos são ...
     Como o piscar brilhante das estrelas?

     Eu trago e canto para você,
     Uma serenata ao luar ,
     Vamos nos desviar de tudo até o raiar do dia ,
     No vale do amor dos sonhos,...
     Você e eu, um céu de verão  !

     Uma brisa celestial beija as árvores ,
     Então não me deixe esperar,
     Venha para mim, delicadamente como na luz de Junho ,
     Que ficarei de pé no seu portão, ...
    
     E cantarei uma música para você ao luar, ...
     Uma música de amor, minha querida ,
     Uma serenata ao luar  ! "

Saudade com muito carinho de todos os queridos e queridas colegas daquele majestoso Baile de Formatura,... e em especial de uma garotinha inesquecível que estava lá... !

-    o    -

Raul de Abreu
Jan - 2010

A MORTE DO VADÃO !


VADÃO , ... VADÃO, ... VADÃOOOOOOO !!!....................


Já era noite, umas 8 horas.

Zé do Mato, " O Grande Amigo de Vadão ",  entrou na sala daquela casa onde residia seu amigo Vadão que havia falecido de um enfarto fulminante na tarde daquele dia.

ZÉ DO MATO

Dizem que Vadão tinha ido à escola buscar seu filho mais novo, o Junior e,... enquanto caminhava pela calçada, viu a Sebastiana, morena belíssima de olhos verdes, cabelos compridos, pernas longas e bem torneadas, um sorriso estonteante, cobiçada por todos os homens e solteiríssima.

VADÃO

TIANA, com um vestido bem colado ao corpo, sapato de salto alto, como se estivesse indo a uma festa, desfilava pela calçada, cumprindo um ritual diário para provocar todos os homens da cidade. Ela andava mexendo todo o corpo vagarosamente, balançando os cabelos longos, sorria enquanto gracejos eram dirigidos a ela.

TIANA

Vadão não resistiu: olhou fixamente para Sebastiana, sorriu, piscou um olho, levou a mão à boca fazendo um gesto típico de quem faz um convite, ... Tiana deu-lhe aquele sorriso de consentimento e Vadão, coitado: caiu durinho morto no chão!

Dizem que enquanto caía, pronunciou suas últimas palavras: “Eita mulher gostosa!” e não se levantou mais.

O caixão do defunto estava no meio da sala, em cima de uma mesa velha. Muitas velas acesas, muitas flores. O pessoal todo da cidade estava presente. Era uma cidade muito pequena: uns 3 mil habitantes.

A viúva, Dona Aninha, toda de preto, rezava com suas comadres ... e chorava inconformada com a morte do marido Vadão.

Dona Aninha

As crianças, filhas das amigas, estavam no quarto do filho mais novo de Vadão, Junior, de 11 anos de idade.

Desorientado, e mal parando em pé, "alto da cachaça", Zé do Mato muito emocionado bradava sem parar:-

- VADÃO... você não pode me deixar aqui assim! Levanta aí, Vadão... vamos lá no Último Gole, o Bar do Bigode, tomar mais uma... A turma toda está lá esperando; eu estava lá até agora quando me falaram que você decidiu partir dessa pruma melhor!


BIGODE

- Que melhor é essa amigão ? Deixar a gente aqui sozinho? E quem é que vai pagar a conta? O Bigode, dono do bar, tá reclamando que “nóis nunca paga a conta, ... que nóis só pendura”... e só você é que consegue dobrar aquele pão-duro duma figa ... e nem sei como é que você consegue... tão falando aí que você tem coisa, amigão! A mulher do cidadão, Dona Angélica,  tá lá chorando,... foi ela que me falou que você se acovardou e resolveu dá o nó nas gravata! (psiu... tá todo mundo desconfiado...!)

Dona Angélica

- Faz isso não! Fica aqui mais um pouco seu filho da mãe! Você prometeu que hoje ia jogar um palitinho com a turma,... E agora, parceiro? A gente não tem mais parceiro; as lingüiça tão lá quentinha esperando; o Bigode até botou uma garrafa nova que foi o cumpadre dele que fez a cachaça !
- VADÃO, .... Vadão, ... Sai desse caixão cara! As moças lá do Barracão tá tudo ouriçada reclamando que “nóis num vai lá bater o ponto faz tempo!” ...vixi, a tua patroa tá ali e num sabe, né? Mas todo mundo sabe, viu Vadão... você é o maior garanhão da cidade,...
Moças do barracão

O Padre, envergonhado com aquele discurso do Zé do Mato que estava mais bêbado do que nunca, chamou o cidadão de lado e aconselhou que não falasse mais nada e que fosse embora porque aquele momento era sagrado e que não poderia ser dito tanta coisa na frente da viúva e dos demais presentes.

O Padre

- Tudo bem, Vadão! Eu vou embora, vou lá tomar mais uma... mas desta vez você me paga, não vou te perdoar não.. justo hoje que eu queria ganhar uma rodada... tinha até moela de frango esperando nóis,... tinha uns amendoim torradinho, até o Zé da Viola tava lá cantando,... e tu resolveu bater as bota. Isso não é coisa de amigo, tu tinha primeiro que ir lá acertar os compromisso... !

Zé da Viola

- Vadão,... Vadão,.... Vadão ! Vai embora não, Vadão. Agora a vida não vai ter mais graça, amigão... o pessoal tá todo lá chorando de raiva porque te pegaram primeiro que esses filho da mãe que tão aqui rezando... Tudo mentira; esses safado vieram aqui pra se vingar, por causa da inveja... até o Delega tá aqui só pra conferir, ... Nem vou falar nada do teu caso com a mulher dele pra não te comprometer viu Vadão, ... é possível que esse safado mande te prender com caixão e tudo!...

- Oi dona Aninha, meus pêsames, viu? Seu marido era um homem muito bão... era como um irmão pra nóis... não tinha companheiro melhor que ele. Ele até que dava uns pulos de vez em quando,... mas não se preocupa não viu dona Aninha... o Vadão era um homem distinto, muito Honesto, bom marido, bom pai, bom amigo, um Santo Homem !

Até a mulherada toda lá do Barracão tá tudo chorando de tão bão que era esse homem. Elas vêm aqui trazer flores só pra consolar a senhora,... viu Dona Aninha ? ! ! !
.
Dona Aninha não conseguia dizer nada... Chorava,... chorava,... chorava !

As comadres de Dona Aninha entraram na sala dizendo:

comadres de Dona Aninha

- Olha o cafezinho! Saiu agora. Tem também um bolinho de fubá e um suquinho de uva. Aproveitem, ... que a noite vai ser longa !. A Maria tá trazendo uns sanduichinhos e uns salgadinhos.
- Agora vamos rezar uma Ave Maria e um Pai Nosso pra alma do nosso amigo Vadão seguir em paz. Ele era um homem Honesto, bom chefe de família, bom cidadão, bom filho e bom irmão e cumpridor de seus deveres... mas ninguém conhece os Desígnios de Deus que levou o Vadão dessa para uma melhor!

Entre salgadinhos, cafezinhos, uma piadinha e outra, os Senhores da cidade apenas comentavam as proezas do Vadão e a beleza da viúva,... Coitada,... agora só e desamparada ! E Zé do Mato continuava seu chôro:

- Vadão,... Vadão,... Vadão ! Dá um último abraço amigão e que Deus o acompanhe... e vai preparando o caminho lá pra gente continuar nosso jogo de palitinho !

Enquanto Zé do Mato deixava a casa, as “meninas” do Barracão chegavam para a última homenagem a Vadão. Estavam todas de preto, até com véus e terços nas mãos, flores, imagens santas e em coro rezando e chorando como se fossem as verdadeiras viúvas.

O Padre não sabia o que fazer, olhou para o Delegado, fez um sinal e teve como resposta outro sinal do tipo “não sei o que fazer também!” e assim as “meninas” entraram na sala e foram logo se postando ao lado do caixão rezando ladainhas típicas da ocasião. Dona Aninha chorava mais ainda. Fazer o quê?

Delegado

As comadres sentadas nos cantos cochichavam espantadas com aquela cena e cobravam de seus maridos que tomassem providências. Todo mundo impotente, com medo de mexer com as meninas,... afinal a maioria ali era assíduo freqüentador do Barracão e ninguém queria se expor.

Zé do Mato, que havia voltado à sala com as meninas, abraçando uma delas falou a Vadão:

- Tá vendo só, amigão? Até as nossas amiguinhas vão sentir a sua falta. Cria vergonha logo nessa cara e levanta logo daí pra gente bater um palitinho lá no boteco do Bigode... você nem vai acreditar no que vou falar: “ Tão dizendo aí, que a Tiana tá morrendo de remorso “docê” ter morrido por causa dela e ela fez promessa que se você sair dessa ela vai lá no Bigode pagar uma rodada pra todo mundo!”

Nesse momento, ninguém sabe explicar direito, o caixão do Vadão começou a tremer ! Todo mundo ficou assustado com medo que fosse o fantasma do Vadão, mas,... Vadão começou a se espreguiçar vagarosamente e foi abrindo os olhos sem saber o que estava acontecendo com aquele mundaréu de gente ali na sala assustada, fazendo Sinal da Cruz, gritando o nome de Jesus, Nossa Senhora, Virgem Maria e outros, em completa histeria.

Enquanto todo mundo "morria de medo", as “meninas” pulavam de contentamento:

- Vadão voltou,... Vadão voltou,... Vadão voltou !

Vadão foi sentando no caixão, balançou a cabeça, espreguiçando-se de um longo sono, olhou pro Zé do Mato e gritou:

- E aí pessoal,... tão querendo me enterrar vivo? Eu só tirei uma sonequinha e já estou atrasado pro joguinho de palito no Bigode. Me ajuda aí a levantar, parceiro, e vamos lá pra festa com o pessoal !

Vadão foi saindo de casa abraçado com Zé do Mato e as meninas deixando pra trás todo mundo boquiaberto, espantado, sem dizer uma palavra. Ele tinha sofrido de um mal que ninguém soube explicar, que parecia ter morrido, mas na verdade não tinha morrido!

- Vadão,... Vadão,... Vadão,... seu filho da mãe ! Por que você demorou pra chegar ?
- Pois é, Bigode, aquela mulher é mesmo de matar... !


................................... F I M nº 1 ...........................................

POST SCRIPTUM nº 01 - INFORMAÇÕES GERAIS:

*  O Delegado abandonou sua mulher e foi embora da cidade no dia seguinte,... apaixonado por um Investigador...
*  Tiana pagou as contas no Bigode e "dizem", mas ninguém sabe direito, que ela agora tem um caso com Vadão;
*  Dona Aninha não tirou mais o luto e fez votos de "eterna castidade";
*  Zé do Mato casou-se com Maria Divina dos Anjos, ex-dona do Barracão e atual dona-de-casa, tornou-se beato, não bebe mais e vai ser pai;
*  O Padre, coitado: Santo Homem, ... fugiu com a empregada; ...
*  Bigode continua vendendo cachaça, fritando linguiça, contando histórias e pintando o bigode ... Ah, ... sua mulher, Dona Angélica,  teve um filho - Junior (a cara do Vadão), cujo padrinho é o Vadão (vai saber...); ... e a vida continua, como sempre ! ! !

... Se voce duvida dessa história,... vai lá na cidade e pergunta pro pessoal ! Até eu que escrevi e não acreditava fui lá pra conferir:

*  Tiana era e continua  um tesão de mulher,
*  Vadão tá gordo que parece um porco;
*  E,... o Barracão, ... agora só tem Travestis;
*  Dona Aninha, por trás daquela cara de Santa.... mudou de vida ! Agora ela resolveu "soltar a franga"...

POST SCRIPTUM nº 02  -  AS EXPLICATIVAS INEXPLICÁVEIS :

1. - Dizem que Maria Cabeleireira, uma branquela de cabelos ruivos, e sardenta, por uma questão de ciúme incontrolável de Vadão, encomendou um despacho num terreiro de macumba, de forma que Vadão morresse fulminante se ele viesse a "dar em cima de outra mulher".

Maria Cabeleireira

2. - Acontece que no velório estava presente a Mãe Benedita, que era Madrinha de Vadão e Mãe de Santo do Terreiro do Pai Jucá e mandou desfazer o despacho pra trazer de volta o seu afilhado querido.

Mãe Benedita
3. - Vadão, é claro, ressuscitou. Mas, ... como o Castigo vem dobrado pra quem manda fazer despacho, Maria Cabeleireira foi destinada a viver solteirona pra sempre ! Tá lá com uma vela rezando sem parar...

4. - Na hora que Vadão ressuscitava, o Padre levantou as mãos para o Céu e gritou:

- Milagre! Milagre! Milagre! Oremos Irmãos que nossos pedidos foram atendidos pois duma natureza dessa só quem tem merecimento é atendido ! E o nosso querido Irmão Vadão, Um Santo Homem voltou !

Todos os fiéis presentes ajoelharam-se e puseram-se a rezar ... enquanto Vadão saía do caixão e ia embora pra gandaia com seus amigos!

.........................    F I M finalmente !     ......................

(dedico essa "brincadeira" a um grande amigo que tinha o apelido de "QUEIXINHO". Ele era o maior "pé-de-valsa" da cidade e todas as garotas ficavam "malucas" pra dançar com ele. Era um bom sujeito, sempre animado, bem humorado, cuca fresca... o tipo do cara que a gente tinha prazer de ter como amigo e irmão camarada. Faz uns 40 anos que nada sei sobre ele).... E, com certeza, Vadão tinha admiração por Queixinho que de verdade era UM SANTO HOMEM ! ). 


Vadão, quando era jovem até que era bem bonitinho... olha aí a foto que consegui dele:
Vadão quando era jovem !


O CATECISMO


José Augusto, filho único de Seu Rodrigues e Dona Zazá, era o aluno mais aplicado e mais inteligente da classe !


Recebia de seus pais uma educação invejável: estava sempre bem arrumadinho, limpinho, cheirosinho, falava mansinho, cabelinho bem cortadinho, e uns óculos fundo-de-garrafa pra ninguém botar defeito (era a única coisa errada no garoto) !

Era o preferido de todos os professores, pois era muito estudioso, caprichoso, educadíssimo e levava sempre presentinhos a todos !

Ia completar 12 anos e fazia o cursinho de catecismo pra fazer sua primeira comunhão. Seus pais já anunciavam uma grande festa para esse grande dia.

Os pais eram fazendeiros muito prósperos, de uma família muito tradicional e centenariamente proprietária de fazendas de gado e café.

Diziam as más línguas que eles viviam fazendo festas suspeitas ! Vai saber...

Guto, como era carinhosamente chamado, não tinha muitos amigos, pois a maioria dos garotos não vinha de famílias abastadas e não tinha os recursos que ele fartamente desfrutava.

Ele chegava de carro todos os dias na escola. O Choffeur, Seu Benedito, trabalhava para a família desde que nasceu visto que seu pai também já era empregado dos avós de Guto.

Seu Benedito vinha com uniforme, chapéu de choffeur, botas de pelica,... tudo que um bom choffeur tinha direito em uma família de ricos !

Quando chegava à escola, estacionava o carro justamente onde as meninas estavam aguardando ansiosas pra ver Guto. Abria a porta para o garoto, estendia-lhe a mão para ajudá-lo a descer e estava sempre, nessas horas, com o boné embaixo do braço em posição de respeito.

Uma beleza ! Ninguém tinha aquela mordomia !

As garotas, com suas saias xadrez e boina combinando, meias ¾, ficavam olhando Guto descer do carro, uniformizado com aquele terninho impecavelmente alinhado, bem passado, engomado e perfumado... Ahhhhhhhhhhhhh,... que garoto lindo e futuro bom partido !

Embora não disputasse da simpatia dos garotos que morriam de inveja, ele era adorado pelas meninas. Mas, Guto, devido à sua rígida educação, era um garoto dócil e muito tímido. Morria de medo das meninas e gostaria muito de ter os garotos como seus amigos pra ir jogar bola com eles, brincar de qualquer coisa como qualquer garoto normal.

Não sabia o que fazer pra conquistar a amizade deles. Só desfrutava da amizade de outros poucos garotos de família muito abastadas, de narizes muito empinados, diferentes dele em comportamento, assanhados com as garotas as quais, pelo poder, assediavam e eram bem sucedidos.

Um dia estava sozinho em sua casa, a mansão que ficava numa quadra inteira no centro da cidade, perto da igreja. Seus pais viajaram e deixaram a governanta incumbida de tomar conta de Guto e, Benedito, para levá-lo, naquela semana, aos rotineiros lugares: escola, igreja, casa dos tios e retorno para casa !

Guto entrou no quarto de seus pais ! ...

O quarto era imenso. Tinha uma televisão colorida embutida, enorme, em móvel de jacarandá importada diretamente para eles.

Olhou o imenso armário no closet... Tudo arrumadinho e brilhando impecavelmente. Abriu a porta do armário de roupas e viu estranha mala... Não resistiu e abriu.

Dentro da mala havia uma coleção enorme de revistas de um autor chamado: CARLOS ZÉFIRO - o mestre dos quadrinhos eróticos do Brasil, conhecido por quase todo garoto de “mão peluda” entre as décadas de 50 a 70.

Carlos Zéfiro publicava uma revista de quadrinhos eróticos com deliciosas aventuras pornográficas em traços simples e sem cor, mas que eram o terror das mães conservadoras, com seu conteúdo que trazia sexo sacana e putarias de todo tipo (a alegria da molecada).

Os quadrinhos eróticos de Carlos Zéfiro foram amados e odiados. Arte e Pornografia. Hoje, sua obra é aclamada por diversos artistas e considerada “Cult”.

Não somente essas revistas, mas Seu Rodrigues, pai de Guto, tinha uma coleção pornográfica enorme de revistas importadas, baralhos, objetos e diversos artigos interessantíssimos para “festas de casais” !

Ele não entendeu nada daquilo, apesar de que, claro, viu logo os desenhos das revistas de Zéfiro, coisa que nunca tinha imaginado existir e ficou boquiaberto vendo aqueles traços de mulheres nuas com seios fartos e sexo com uma vasta cobertura de pelos...

- Pelos? Não sabia que mulheres tinham pelos! Minha mãe acho que não tem !

Pegou logo um exemplar da revista – A CARONA, que na capa estampava a foto de uma mulher à beira da estrada e um caminhão – FNM estacionando (que todos chamavam de FENEMÊ).

Na capa da revista, no rodapé, alertava: “EXPRESSAMENTE PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS”.

No cabeçalho estava registrado: “ Aquela garota parada à beira da estrada me fez parar o caminhão. Era tão gostosinha que bem merecia o que queria: UMA CARONA ! “

Ele ficou assustado enquanto abria a revista. Havia gravuras e textos eróticos...

Foi correndo para o banheiro, fechou a porta, colocou aquele imenso par de óculos e começou a ver e rever gravura por gravura e a ler texto por texto. Não entendeu quando percebeu que estava ficando excitado; aquilo nunca havia acontecido, pois, afinal, nunca tinha visto e nem ouvido em casa comentários sobre sexo já que seus pais eram sempre de uma lisura irretocável !

Dia seguinte, após a aula da escola quando ia para a aula de catecismo na Igreja, ele levou a Revistinha de Zéfiro dentro do livro de catecismo.

Quando chegou à Igreja, chamou o José Carlos, cujo apelido era Tico-tico, um garoto que até que gostava um pouco de Guto.

- Olha só o que achei em casa, Tico-tico!
- Nossaaaaaaa ! Você tem um Catecismo ?
- Tenho sim,... mas estou falando dessa revistinha que achei...
- Sim, essa mesma. Essa revistinha chama-se Catecismo...
- Catecismo? Mas aqui não tem nada de aula de religião...
- Mas é Catecismo. Todo moleque da cidade faz qualquer coisa pra ter um Catecismo desses...
- Ah, é? Eu não sabia. Isso aqui é Catecismo? E esse livro de aula de Catecismo?
- Esse aí é Catecismo da Igreja... Mas essa revistinha é um Catecismo que a molecada leva atrás da moita pra “bater umas” em grupo...
- Bater umas em grupo? O que é isso?
- Você nunca bateu uma?
- Bateu o quê ? Não sei....
- Uma punheta, vendo catecismo!
- O que é isso?
- Olha, vamos fazer o seguinte, Guto: depois da aula de Catecismo, a gente vai lá na casa do Zé Espingarda e você vai ficar sabendo. Mas isso é um segredo, você não pode contar pra ninguém, tá bom ?
- Tá bem ... !

Tico-tico já avisou logo a molecada que Guto tinha um Catecismo e que iria levar na casa do Zé Espingarda a tarde. A molecada ficou toda alvoroçada...

- Seu Benedito, o Sr. poderia me levar na casa do Zé Espingarda hoje depois do almoço?
- Sim Sr., Seu Guto. Mas o que o Sr. vai fazer lá?

Guto exitou e lembrou-se da recomendação do Tico-tico pra não contar pra ninguém. Então resolveu inventar uma desculpa...

- É que hoje temos que estudar o Catecismo...
- Ah! Sim Senhor! Vou levar o Senhor sim!

Ele almoçou com uma ansiedade daquelas, pois queria descobir o que era “bater uma” !

Quando deram 2 horas da tarde, ele já estava preocupado e foi descendo as escadas do andar superior da casa, onde ficava seu quarto, para encontrar Seu Benedito.

- Ah, Senhor Guto... já estou pronto para levar o Senhor!

Assim foram até a casa do Zé Espingarda. Quando lá chegaram, Seu Benedito esboçou um largo sorriso como nunca havia feito antes, pois viu logo a garotada toda entusiasmada esperando Guto ! ... Que mudança !

- Hei Guto, estamos esperando você pra estudarmos o Catecismo! Que bom que você já chegou... !

Foram até o quintal da casa onde havia uma casinha de depósito de materiais do pai de Zé Espingarda. Guto estava muito surpreso, pois até aquele dia nunca tinha recebido tanta atenção e carinho daqueles moleques. Ficou todo empinadinho de contentamento!

- E aí, Guto? Você trouxe o Catecismo?
- Não, eu deixei lá em casa. Eu trouxe só essa revistinha aqui...
- Isso mesmo ! É esse Catecismo aí que estamos querendo ver ! Vamos começar a leitura já !

A molecada sentou-se no chão. Todo mundo tirou o calção e imediatamente nomearam Tico-tico pra fazer a leitura, exibindo os quadrinhos para todos...

- Mosqueteiros: De arma em prumo... Vai começar a festa: todo mundo com o pinto na mão “batendo uma bem batida” pro nosso amigo Guto aprender o que é um Catecismo! E hoje vamos bater uma com o pensamento na Martinha, a gata mais gostosa da cidade !

Guto ficou assustado com tanto moleque ali pelado. Não sabia o que fazer e tirou a roupa também. Afinal, o que ele mais queria na vida era ter amigos e deixar aquela vida tediosa e monótona de “filhinho de papai” !

Botou o “pirulito” pra fora, observou bem os novos amigos e começou a copiá-los numa “batida celestial” ! ... E pensou na Martinha que também era seu maior desejo !

- Uau ! Que delicia... ! Isso aqui que é “bater uma” ? Eu tenho lá em casa umas 50 revistinhas dessa... ! E tem outras com fotografias coloridas que eu descobri no quarto do meu pai !

- Guto, a partir de hoje você é o nosso maior amigo! ... Agora, todo dia você vem aqui que vamos Estudar o Catecismo e “bater umas” até o “prego virar alfinete” !

Guto voltou muitas vezes e seus amigos foram testemunhas do dia em que ele “virou homem” jorrando o seu primeiro orgasmo.

... “SANTO SENHOR CARLOS ZÉFIRO – O PROTETOR DA MOLECADA !”

Guto nos dias seguintes levou todas as revistas para os novos amigos conhecerem e, com isso, passou a ser considerado por todos como o melhor amigo a ponto de convidá-los sempre para freqüentarem sua casa e desfrutarem daquela linda piscina.

As garotas começaram também a freqüentar sua casa, para alegria de Seu Rodrigues – que sabia muito bem o que tinha acontecido.

Volta e meia Guto levava todos, inclusive as meninas, para o enorme Galpão onde ficavam os carros, para estudarem com muito afinco e aplicarem em aulas práticas os grandes ensinamentos do Catecismo... !

E foi assim que Guto, a partir daquele dia, chegava todo dia na escola com um sorriso largo estampado no rosto e era recebido aos abraços calorosos de toda molecada, deixando as meninas malucas por ele...

... Bem, não foi à toa que ele ficou sendo conhecido tempos depois ... e respeitado por todos,... como “O Rei do Galinheiro !”

Hoje, Guto é um homem formado, próspero empresário, bem casado e homem sério !

Mas, em sua vasta sala, naquele maravilhoso prédio de 20 andares da Capital, tem uma passagem secreta para uma grande estante onde ele guarda um GRANDE TESOURO – A coleção completa dos Catecismos que adquiriu durante toda sua vida, com as assinaturas de seus inesquecíveis amigos e, ainda, um quadro que lhe ofertaram:

... “Ao amigo Guto, O CAMPEÃO DAS BATIDAS, a lembrança de seus amigos da infância !”

Desde que se mudou para a Capital, Guto faz um encontro todos os anos com seus amigos. Nessa data eles selecionam um Catecismo e lêem em voz alta, como no princípio, fazendo “alguma homenagem” àquelas garotas que foram suas fantasias enquanto crianças:

... Aninha, Rosinha, Soninha, Clarinha, Mariinha, Cicinha, Cristininha, Martinha....

Esse ano, o Catecismo selecionado foi “ FRUTOS PROIBIDOS ” que será lido pela Martinha – que sempre foi e continua sendo a garota mais desejada da cidade.

Várias amiguinhas da época também estarão presentes, além dos marmanjos da turma do “bater uma em grupo” da casa do Zé Espingarda.

A Martinha mandou avisar que nesse encontro, em homenagem aos 20 anos de nossos encontros e às tantas “batidas” que foram feitas com o pensamento nela, ela vai satisfazer os desejos da “molecada” lendo NUAZINHA fantasiada de "MAMÃE NOELA" todo o Catecismo “  FRUTOS PROIBIDOS  ” !.

Martinha fantasiada de Mamãe Noela

Bem,... pedindo licença aos leitores, eu já vou me despedindo porque não sou de ferro e fiquei a vida toda pensando na Martinha e sonhando com uma oportunidade dessas. E essa, ... eu não vou perder por nada desse mundo ! ... (depois eu conto o restante).

Ah, esqueci de dizer que o Encontro vai ser hoje, ... daqui a pouco ! Putz ! ... e eu sou o Tico-tico !

TICO-TICO




LA CUCINA DE ZIA NORMA !





LUCIANO PAVAROTTI (1935 - 2007)  -  FUNICULI FUNICULÁ

Logo cedo, pela manhã, já se podia ouvir daquela casa o rumor da “dolce vita de una famiglia italiana ” na tranqüila cidadezinha !.

- Mafaldinhoooo, ... ! Ô Mafaldinho ! Me põe logo tuo uniforme e me vai logo pra scuola per studare.
- Va via, mamma... va via ! Non me rompere le bale logo cedo,... cazzo !
- Va via tu figliori de un cane. Me vai correndo pra scuola che tuo pappa já foi ao lavoro!

Era muito engraçado, muito alegre, muito feliz, viver ali pertinho da “famiglia” da Dona Norma. Uma grande salada de idioma... (risos) !

Ela era uma italiana nascida na capital paulista – no Brás, e tinha traços físicos de uma linda napolitana, como lembra bem aquela atriz que fez o papel de Beatrice no filme “O Carteiro e o Poeta”, filmado na Bahia Napolitana, em especial em Procida e Ischia.

Dona Norma tinha um humor incrível: sempre sorrindo, sempre solicita, sempre pronta a dizer uma palavra carinhosa a todas as pessoas que por ali passavam, em especial as crianças que freqüentavam seu lar e eram amigas de seus filhos.

Eu era um garoto privilegiado, pois não somente era amigo de seus filhos, mas era vizinho de casa e meu quarto ficava a poucos metros da copa onde a “famiglia de Dona Norma” tomava todas as refeições.

Eu ficava ali na minha cama, quietinho, gargalhando, deliciando quando eles estavam tomando café, almoçando, jantando, ou qualquer outra coisa, pois era muito divertido ouvir tudo que diziam.

- Puta Merda, Mafi, non mi fala bobage na mesa !
- Caspita, non mi rompere le bale...!

Eu não entendia nada do que falavam em “italianês” (italiano com português), mas, até hoje, 50 anos depois, cada vez que exclamo alguma coisa, em qualquer lugar, digo logo:


“Puta merda Mafi”...

 ... e, quem ao meu lado ouve não deve entender nada, mas, é minha forma carinhosa de brincar com as pessoas, numa saudosa lembrança daqueles dias maravilhosos que convivia diariamente com aquelas  que sei que Deus colocou em nossos caminhos, em nossa vida, para tornar tudo mais bonito e mais agradável.

Meus filhos aprenderam algumas dessas expressões e, como eu, repetem sempre por onde andam de tal forma que sei que passarão adiante por muitos anos para muitas pessoas, que também levarão adiante, pela simples ternura, sem mesmo conhecerem o motivo e origem de sua história (a minha história).

Dona Norma fazia uma pizza maravilhosa. Quando eu sentia aquele cheirinho maravilhoso, era como em um filme de desenho animado:

... “o cheiro caminhava pelo ar vagarosamente até meu quarto e me levava levitando até a casa de aquela delicata signora ! ”.

PIZZA DA ZIA NORMA

- Oi Dona Norma, ... tudo bem? Ah, eu vim aqui pra brincar com o Mafaldinho.... Ele está ?
- Seu malandro, você veio aqui por causa do cheiro da minha Focaccia !.
- Focaccia? Que que é isso? A Senhora não está fazendo aquela deliciosa pizza cheia de tomates?
- Estou sim. Mas é uma focaccia. Você quer experimentar um pedacinho?
- Não, Dona Norma,... eu vim apenas ver se o Mafaldinho estava...

Dona Norma, sorrindo, não perdeu tempo e foi logo colocando um pedação daquela “Pizza Focaccia” em um prato e eu, mais que depressa, engoli aquela delicia em poucas mordidas esperando o repeteco que vinha em seguida.

- Ah, você já comeu tudo? Puxa, estava com fome mesmo... na tua casa não tem comida? ... hahaha !!! Agora você vai comer a sobremesa. Fiz uma gelatina de morango que está uma delicia !

Ela deu-me um potinho pirex (bem pequeno) com gelatina de morango, geladinha. Uma delícia! Mas, ... sorrindo sem conseguir disfarçar, deu-me uma colher de arroz, bem grande, que não cabia dentro do potinho ... !

- Dona Norma ... ! Como ... ??? !!!
- Ha, ... ha, ... ha ! ( lol ) ... você não consegue comer com essa colher ?... !

Eu nem ficava com vergonha por causa das brincadeiras da Dona Norma e, para recompensar tanto carinho dela comigo, eu levava sempre um maço de Salsões que tinha no canteiro de minha casa, pois ela adorava. Levava também os brotos de abóbora, que chamávamos de “cambuquira”, pois ela fazia vários tipos de pratos. Algumas frutas do quintal de casa, ... outras verduras,... Era o mínimo que eu poderia fazer pra demonstrar o quanto eu ficava feliz com o carinho que recebia daquela senhora.

Não posso esquecer as brincadeiras que ela fazia comigo e com as demais crianças, sempre bem humorada, mas sempre com muito carinho com todos.

" Puta merda, Mafi, ... O tempo passou. Caspita !"

 Não vejo Dona Norma há tantos anos. Nem seus filhos, seu marido que sei que já “habita o Oriente Eterno”, ... mas sempre estiveram tão presentes em minha vida, nas minhas queridas lembranças que as vezes sinto-me levitando em busca daquele saboroso aroma daquela cozinha onde, além das deliciosas comidas que ela fazia, eu sempre sentia uma  alegria tão grande, harmonia, paz e muita vontade de viver sorrindo. Estou com saudade !

“ Puta merda, Mafi ", ...

Se pudéssemos gravar o tempo e participar dele a cada momento que bate uma saudade aqui no peito, ... eu queria tanto poder dizer o quanto foram importantes em minha vida,... naqueles momentos tão maravilhosos que ficaram e estão guardados com muito carinho aqui no meu cantinho do lado esquerdo ...

...aquele vinho Chianti, ... aquele queijo gorgonzola,... a TV quando chegou à cidade,... a caminhonete onde saboreávamos ao vento no rosto,... as pescarias,... a pizza focaccia,... o Mafaldinho cantando,... as festas de aniversário,...

Que saudade !

Há uma musica "speciale" , entre tantas outras, que me transporta sempre em uma lembrança gostosa desse tempinho cheio de encantos:

... Puta merda, Mafi: nom mi fai piangere de saudade ! Puta merda, Mafi !
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Raul Ramos Neves de Abreu
            19 / 01 / 2014

MARIA FORMIGUEIRA



A manhã estava nublada e muito fria por causa do vento e de uma fina garoa que caía bucolicamente sobre a cidadezinha. Era inicio do inverno. Poucas pessoas caminhavam vagarosamente e bem agasalhadas pelas ruas. O relógio da Igreja marcava 6 horas da manhã.

A rua principal, Santo Antonio, de paralelepípedos, toda escorregadia devido àquela fina garoa que caia de mansinho. Era um digno espetáculo observar aquela cena tão romântica:

... As jardineiras nos alpendres das casas todas molhadinhas e as folhas das plantas pareciam encolher-se de frio que até parecia se poder ouvir suas exclamações ora de contentamento e agradecimento por estarem sendo abençoadamente regadas pela natureza, ora porque estava bastante frio mesmo... brrrrrrr !!!

A carrocinha que trazia leite e produtos da fazenda – frutas, legumes e verduras, subia chorosa a ladeira e Seu Manoel, o leiteiro, bradava gentilmente com Malhado:

- Ôa, ... ôa Malhado ! Vamos amigão, temos ainda que entregar todo leite e voltar logo pra casa! Ôa, Malhado... vamos !

Malhado era um cavalo já meio cansado de idade e de trabalho e puxava todos os dias aquela carrocinha silenciosamente. O pavimento da rua, de pedras, todo escorregadio, obrigava-o a um esforço ainda maior, mas, mesmo assim, ele continuava subindo a ladeira silenciosamente.

- Bom dia, Seu Manoel !
- Bom dia, Maria Formigueira! Você não está com frio? Está aí toda descalça e sem agasalho !
- É, Seu Manoel ... !

Seu Manoel pegou logo um saco vazio de feijão, todo em tramas grossas de algodão e ofereceu a Maria Formigueira que tremia de frio, com uma saia tão fina e uma blusinha toda rasgada. Ela, rapidamente colocou sobre os ombros e num sorriso tímido agradeceu:

- Que Deus lhe pague, muito obrigada !

Ninguém conhecia o passado de Maria Formigueira, quem era e de onde teria vindo. Ela era uma negrinha franzina, cabelos curtos, dentes maltratados, pés descalços todo machucados, andarilha pela cidade à procura de um prato de comida já que ninguém tinha coragem de perguntar sobre suas necessidades e tentar oferecer-lhe um trabalho.

Era muito popular porque invariavelmente estava embriagada.

Mas, chamava muito a atenção, entre tantas outras coisas, que ela até sabia ler e escrever, embora com muita dificuldade, pois era de se esperar que naquele estado fosse totalmente analfabeta.

Ela carregava sempre uma pedrinha e, quando podia, fazia uma pequena oração e em seguida escondia a pedrinha embaixo de algum buraco ou tijolo que encontrava por onde passava.

Ninguém entendia o que queriam dizer aquelas pedrinhas escondidas.

- Olha lá aquela macumbeira de novo ... ! Deve estar jogando praga em cima de alguém... Essa negrinha é um perigo pra essa cidade, alguém tem que tomar uma providência e mandá-la embora daqui ! Só pode ser macumba, ela colocou mandinga contra alguma ou algumas pessoas embaixo daquela pedra... eita “bicho do mato” !

Assim, muitas pessoas sempre pensavam e diziam sobre ela.

Maria Formigueira continuou descendo a ladeira até chegar à ponte do riacho que dividia a cidade. Ficou lá olhando demoradamente, gesticulando e falando sozinha. Devia estar, como pensavam as pessoas sobre ela, fazendo algum tipo de prece em benefício ou malefício de alguém.

Foi mais adiante e lavou seu rosto naquelas águas geladas que desciam na corredeira e depois se espreguiçou, molhou novamente o rosto, olhou ao redor, em silêncio, balançou a cabeça, sorriu... e começou a perambular... até chegar à casa de uma senhora, idosa, que a acolheu com um largo sorriso:

- Bom dia, Maria Formigueira! Como você está, minha filha? Aí nessa garoa, toda molhada, ensopada, vai pegar uma pneumonia. Entra logo que vou preparar um leitinho quente com café e um pãozinho com manteiga e umas roupas pra você trocar !

Ela olhou Dona Aparecida com lágrimas nos olhos, entrou na casa em silêncio, tomou um banho bem quentinho e colocou roupas limpas e secas que a Senhora havia separado pra ela.

- Oi, Dona Aparecida, a Senhora não precisa se preocupar comigo. Estou bem! A Senhora é uma Santa de pessoa e Deus vai sempre olhar pela Senhora.
- Minha filha, você precisa descansar... fica aí andando pela cidade... E veja se não toma mais essa bebida que está acabando com você... Você ainda é tão nova, precisa reagir. Confia em Deus que sua vida vai melhorar !
- Ah, Dona Aparecida,... a Senhora me lembra minha mãe... coitadinha que já está lá no Céu. Ela era tão boazinha comigo, mas uma doença levou-a embora tão cedo e eu fiquei sozinha nesse mundo. Não sei quem é meu pai...
- Minha filha, você não está sozinha. Tem muita gente que gosta de você. Toma logo esse lanchinho que preparei e depois vai lá no quartinho dormir um pouco que você vai ficar bem !

Ela olhou bem Dona Aparecida, em lágrimas de felicidade... comeu e bebeu com muita vontade e depois foi dormir.

À tardinha, ela saiu da casa e novamente, como fazia todos os dias, começou a perambular pela cidade, parando em cada vitrine de loja para olhar os brinquedos, as roupas, as novidades... sempre em silêncio. Pegou uma pedrinha e fez uma oração, como habitual, foi até uma árvore da calçada e, colocou-a junto as raízes.

As pessoas olhavam intrigadas e, já sabendo que ela havia passado o dia em casa de Dona Aparecida, imaginaram logo que fosse alguma praga contra aquela boa senhora.

Com uma varinha, deslocaram a pedra, sem colocar as mãos e lá nada estava escrito !!!. O que seria isso? Em todo lugar havia uma pedrinha assim !.

A noite começava a dar seus ares e, com ela, o frio aumentava e a garoa continuava. Maria Formigueira entrou num boteco e, mesmo sem pedir nada, o balconista encheu um copo de cachaça e entregou a ela.

Ela olhou fixamente para o balconista, seus olhos ficaram mareados, olhou para o copo, olhou para as pessoas que assistiam ironicamente em silêncio e bebeu todo o conteúdo do copo. Em seguida mais outro e mais outro... até não saber mais onde estava ou quem era ... e foi saindo cambaleando pelas ruas sob aquela garoa que já se fazia mais forte.

Ao descer novamente aquela ladeira da rua principal, enquanto as pessoas do boteco observavam sua caminhada, ela deparou-se com um vulto escuro na esquina e, de tão embriagada que estava, começou a conversar com ele, sem perceber que era apenas um poste de ferro, de energia elétrica:

- Oi meu neguinho,... só você que pode me entender: minha mãe morreu e eu estou aqui nesse mundo vagando sem saber pra onde ir... nem sei quem é meu pai, não tenho irmãos, não tenho família, ... por onde vou todos me olham com medo...

O poste ali parado, nada respondia.

- Eu estava com fome e me deram pinga. Com esse frio... você me desculpa, viu neguinho... tem muita gente boa nesse mundo, mas tem gente que não está dentro da gente pra saber o nosso sofrimento...

O poste ali parado continuava sem responder

- Dona Aparecida, uma mulher muito boa, uma Santa de pessoa, me deu de comer, de beber e até me deixou tomar banho e me deu essas roupas aqui... que agora já estão todas molhadas de novo. Mas eu não quero atrapalhar a vida de ninguém não, viu meu neguinho. Só você que pode me entender porque você também é um neguinho, como eu, e deve entender como são essas coisas.

- Vou colocar de novo essa pedrinha aqui lá embaixo daquele banquinho ... você fica aí de olho e não deixa ninguém pegar, viu? Eu tenho que deixar essas lembrancinhas ... Mas você só fica aí parado, meu neguinho? O gato comeu a sua língua? Vem cá e me dá um abraço que eu vou embora dessa cidade hoje mesmo pra ver se encontro o meu lugar... !

Nesse instante, ainda sem perceber que falava com um poste, ela abriu os braços e abraçou com muita vontade pensando ser algum moço que estava ouvindo sua história.

O poste tinha um fio descascado e, devido ainda mais à chuva, quando Maria Formigueira o abraçou houve uma descarga elétrica na coitada que a jogou deitada de costas no chão, toda dolorida e assustada, demorando alguns minutos pra se refazer.

- Oi meu neguinho ! Até você me maltrata? Minha mãe foi embora, não tenho mais ninguém nessa vida... e você me dá um coice desse tamanho? O que eu fiz de mal pra você ?

Ela desceu a ladeira desconsolada, às lagrimas e soluços e foi se deitar em um sofázinho de vime que havia na varanda de uma casa. Levantou as almofadas e colocou várias pedrinhas e dormiu um sono profundo !

Pela manhã, os cachorros da casa latiam sem parar.

Seu João, o dono da casa, assustado, foi logo ver o que estava acontecendo e quando abriu a porta da sala que dava para o alpendre viu aquela negrinha lá dormindo profundamente sem se mexer...

Reconheceu-a e aproximou-se dela com cuidado. Olhou-a, colocou sua mão sobre a testa de Maria Formigueira, olhou sua esposa que também assistia e disse:

- É a Maria Formigueira! Ela morreu dormindo aqui, como uma anjinha, coitada. E espalhou todas essas pedrinhas...

A cidade toda ficou logo sabendo do acontecimento. Chamaram o padre que imediatamente mandou preparar um velório com muito respeito àquela pobre criatura. Ninguém entendia o porquê de tanto carinho com ela e, então, o padre disse:

- Essa pobre criatura estava perdida. Vinha muitas vezes à Igreja rezar pela memória de sua mãe e também pela saúde e paz de todos os moradores desta cidade. Ela nunca fez mal a ninguém, mas sim orou todos os dias por todos e agora ela deve estar lá no céu nos braços de sua querida mãe.

Todos que assistiam àquele velório ficaram em silêncio envergonhados e com remorso de seus pensamentos sobre aquela moça e, emocionados, muitos oravam com lágrimas nos olhos desejando paz a Maria Formigueira e perdão para seus próprios pecados da indiferença e do preconceito.

O Delegado aproximou-se do padre e não resistiu a perguntar como porta-voz de todos os moradores também inquietos sobre o que seria o mistério de Maria Formigueira:

- Perdão Senhor Padre, já que o Senhor conhecia bem a Maria Formigueira, poderia nos dizer por que é que ela sempre colocava uma pedrinha escondida em algum lugar ? Todos sempre imaginaram que isso fosse algum tipo de magia contra alguma pessoa...

O Padre olhou bem para o Delegado e para todos que ficaram em silêncio esperando sua resposta:

- Meus filhos, essa mocinha amava a todos dessa cidade, apesar de sua vida desregrada. Ela perdeu sua mãe muito cedo. Aprendeu a escrever e pouco escrevia, mas, ela fez uma promessa, que eu só poderia revelar após sua morte.

- Eu sempre lia a Bíblia para ela ,explicando o significado de cada passagem. Um dia, li sobre Pedro 2:4-8, onde Pedro usa a imagem da pedra para descrever a comunidade Cristã, como sendo a Pedra Principal na construção de nossas vidas. Ela entendeu então que Deus, O Pai, é o Gande Construtor e Jesus, O Filho, O Instrumento, ou seja, a Pedra Principal para a construção e salvação de nossas vidas.

- Assim, Maria Formigueira fez uma promessa que durante todos os dias de sua vida iria depositar uma pedrinha, após uma oração, desejando que Jesus habitasse o coração de todos e protegesse sua querida mãe que havia partido tão cedo para o Céu.

- E ela, todos os dias, independente de sua situação, orou por todos e colocou uma pedrinha rogando a Jesus que iluminasse e guardasse a todos os viventes desta cidade...

- Espero que nesse momento nos juntemos todos em oração para que essa pobre criatura alcance um lugar entre os justos e repouse em paz!

As pessoas atendendo ao chamado do Padre, cabisbaixas, envergonhadas, entreolharam-se e silenciosas voltaram para suas casas  ... !

Muitos anos se passaram...

Ninguém mais se lembra daquela negrinha inocente, humilde e cheia de esperanças chamada Maria Formigueira !

Raul de Abreu
mar / 2008

ONDE ANDARÁ TIQUINHO ?

Durante aqueles tempos, poucas coisas assustavam as pessoas nas cidades: Lendas do Saci-Pererê, da Mula sem cabeça, fantasmas à meia- noite no cemitério, a ventania em noite de lua cheia, chuvas durante a madrugada, ou no máximo, as loucuras de um embriagado que mais falava insanidades do que ameaças às pessoas...


Ah ! ... Também havia Maria Louca. Ela era uma pessoa que ninguém sabia a idade, se nova ou velha, apesar de aparência muito desgastada. Vivia perambulando pela cidade falando sem parar, sozinha e pra si mesma, gesticulando como se estivesse discutindo alguma coisa com alguém... Todos temiam que ela fosse alguma coisa mais que apenas uma mulher louca.

Mas, o que mais assustava mesmo era Tiquinho. Ele era apenas um garoto simples, muito humilde, calado, de olhar sereno e talvez órfão porque ninguém ainda havia conhecido seus pais. 

Era muito estranho e ninguém sabia dizer porquê. Sentia-se um calafrio quando se chegava perto dele...

Não conversava com as pessoas e todos tinham receio de perguntarem alguma coisa a ele, que apenas olhava as pessoas, permanecia calado, porém com um olhar bem sereno, cativo...

Tinha belos olhos azuis, esboçava um sorriso tímido, um perfil delicado e parecia ser muito bondoso. Mas, mesmo assim, todos tinham certo medo...

Poucas vezes era visto pela cidade. Geralmente viam-no na Praça da Igreja observando as copas das árvores e, imediatamente, os pássaros voavam ao seu encontro e pousavam em seus braços, nos ombros, sobre sua cabeça...


Ele apenas sorria e acariciava aquelas criaturas. De repente, com um simples olhar, como se fosse uma ordem, as aves voavam de volta aos lugares de onde tinham saído.

Contam que ele conversava sim com todos os animais que existiam... ! ???

Um dia contaram que viram Tiquinho caminhando pela mata e que lindas borboletas azuis acompanhavam-no enquanto ele seguia por uma pequena trilha... Não só as borboletas, mas também coelhos, esquilos, pássaros, lagartos e até cobras iam com ele por onde ele passava... 

Tudo em silêncio, tudo muito estranho, mas tudo em perfeita harmonia !

Ele foi caminhando,... caminhando,... afastou delicadamente algumas folhagens que atravessavam seu caminho, as quais voltaram em seguida aos seus lugares... Não se sabe como e nem porque, logo em seguida ele com todos aqueles animais nunca mais foi visto ! 

Nem na cidade alguém o viu alguma outra vez !

Isso aconteceu há mais de quarenta anos atrás...

Recentemente eu estava em uma praça da cidade. Muitas árvores, e no meio da praça a temperatura estava fresquinha, embora um dia de calor causticante. Havia também uma fonte protegida por grades metálicas... e na pequena mureta de alvenaria estava sentado um homem de estatura mediana, magro, cabelos castanhos brilhantes, sedosos e com alguns tons grisalhos...

Ele acariciava os pássaros que vinham pousar em seu corpo. De repente, ele voltou seu rosto para mim e deu um sorriso que me fez sentir um calafrio estranho... Ele continuou me olhando e sorrindo... Tinha belos olhos azuis, um olhar carinhoso, um rosto já marcado pelo tempo, mas um ar sereno de quem só transmitia a paz !

Pensei naquele instante:

- Será o Tiquinho ?

Ele levantou-se vagarosamente e foi caminhando fora da praça olhando-me com aquele olhar estranho, mas muito bondoso... e as aves seguiam-no felizes !

Voltei mais vezes àquela praça em vários horários, ... Fui a outras praças, rodei toda cidade a sua procura e não sei onde é que ele foi parar... 

Isso aconteceu somente há apenas duas semanas atrás !

Estranho... ! Quem será aquele homem ? Por onde andará o Tiquinho ?

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Raul Neves Abreu
18 / 12 /2011