domingo, 19 de janeiro de 2014

O ESPELHINHO MÁGICO !


Há alguns anos atrás, o maior sonho de um garoto quando completava 10 anos de idade era ganhar um canivete.

Canivete significava a liberdade: descascar frutas, cortar gravetos no mato, enfrentar uma onça, cortar o ferrão de um peixe “mandi-chorão”, cortar a palha de milho pra fazer um cigarro, picar o fumo, cortar o cipó, o mato, furar buracos no chão pra fazer as birocas e jogar bolinha de gude, tantas outras coisas, ...

Canivete era um Símbolo de Macheza !

Canivete Suiço

Mas, ... ninguém brigava com ninguém, não ameaçava, não matava, não feria, não cometia qualquer tipo de delito. Apenas havia o desejo de ter um canivete, do mesmo jeito que se tem que usar cueca. Fazia parte da indumentária masculina e pronto !.

Aos 11 anos de idade, os garotos de bom aproveitamento escolar ingressavam no 1º ano ginasial, atualmente a 5ª. Série.

Uniforme obrigatório, com gravatinha azul marinho, sapatinhos bem lustrados, cabelo penteado... Ah ! Cabelo penteado!

Não havia um garoto que não portasse um Espelhinho de Bolso e, é claro, um canivete suiço.
Espelhinho de Bolso com foto de mulheres

O garoto em sala de aula, já esquecido o canivete, pegava o espelhinho toda hora, olhava para a menina interessante do lado, fazia pose, molhava as mãos com cuspe e em seguida os cabelos e admirava-se como um verdadeiro Narciso – o Rei da Beleza Universal, e alisava aqueles cabelos anteriormente emplastados de gumex em casa.

Fazia pose. O topete... Ah,... que topete ! Cabelo curtíssimo com um vasto topete.

Regininha, sentada na carteira escolar ao lado de Beto, ria como uma tonta cada vez que aquele doido tirava do bolso interno do paletó aquele arsenal de beleza: Um espelhinho de bolso, com a foto, no verso, de uma artista americana seminua e aquele pente enorme para aquele quase nada de cabelo cortado à moda americana.

- Oi Beto, para de se mexer. A professora já já vai dar uma bronca em você. Parece que tem pulga... e nem tem tanto cabelo pra ficar se penteando tanto...
- Não enche, Regininha, eu estou é de olho na professora. Como é linda essa mulher... ainda vou dançar com ela lá no clube, você vai ver!
- Duvido: ela já é uma velha, deve ter uns 25 anos e vai até casar...
- Eu sei. Mas acontece que o namorado dela não mora aqui... você vai ver !

Regininha era uma bela garota, de cabelos castanhos escuros, olhos azuis, face rosada, já mostrava que iria ter seios grandes pois já usava um soutien que se percebia pela blusa branca, de um tecido fino, do uniforme. A saia rodada, azul-marinho, um pouco abaixo dos joelhos. Pernas bonitas. Líder de um grupinho de seguidoras e candidata a secretária do grêmio estudantil.

Regininha
Beto,... bem,... Beto era como todos os outros: trazia no bolso interno do paletó um belo espelhinho com a foto de uma linda mulher.

Beto
Eis que no intervalo, os garotos lá no fundo, onde havia um matinho, juntavam-se para contar suas aventuras e observações, entre uma tragadinha e outra, e acabaram conhecendo por um veterano do 2º ano do ginásio, o Zé Gambá, a VERDADEIRA UTILIDADE DO ESPELHINHO MÁGICO !

- Aí garotada: esse espelhinho não é pra ficarem penteando o cabelo não, seus idiotas! Isso aí é pra colar em baixo da ponta do sapato, chegar perto de uma garota e admirar a bela calcinha que ela usa!
- Outro dia eu vi a calcinha da professora de Matemática. Que beleza de calcinha: branquinha com rendinhas ! Na hora do lanche, fui correndo lá no banheiro e “despenei o sabiá”!
- A professora de história então nem se fala: todo mundo já viu a calcinha preta dela... A de Espanhol dizem que até não usa calcinha, ... a mulher do Diretor só usa vermelha e todas as alunas só usam calcinha branca !.

Ficaram todos boquiabertos, olhando como idiotas mesmo uns para os outros e até pararam de fumar. Um sorriso malandro no rosto de cada um e... aprendida a nova lição saíram rápido daquela concentração para iniciarem suas novas “pesquisas” no páteo da Escola.

Beto, em sala de aula, tirava o espelho do bolso, olhava,... olhava, colocava de novo no bolso,... tirava de novo, repetia tudo ... e olhava ao lado para as pernas de Regininha com um pensamento nada convencional.

- “ você vai ser a minha primeira vítima, Regininha. E vai ser hoje !”

Mal sabiam os novatos que também as meninas já sabiam da história pois tinham sido alertadas pelas mais velhas ou até mesmo por suas mães. Entretanto, conquista era conquista e nada como um bom desafio, uma boa aventura para dar mais graça e calor a cada dia!

Começaram a testar em casa como colar o espelhinho no sapato de forma que não caísse e que ninguém percebesse. Foram até a praça da Igreja, onde então apareceu o sabichão do Zé Gambá e, mais uma vez, como um “Mestre” ensinou aos garotos que eles deveriam com o “famoso canivete” descolar uma parte do couro do sapato, na ponta, para que assim o espelhinho fosse colocado e ficasse com a pressão suficiente.

Dito e feito: os moleques descobriram a mais nova e mais importante Utilidade do Canivete! Todo mundo de sapato descolado na ponta !.

Dia seguinte, Beto quando entrou na sala de aula e sentou-se à sua carteira, colocou logo o espelhinho no sapato e ficou esperando uma chance em que Regininha se levantasse para já iniciar a nova mania escolar: Ver calcinhas !

Quando a professora entrou na sala, todos se levantaram, como era o costume, e Beto com um sorriso “encapetado” jogou logo o pé perto da saia de Regininha e ficou ali pasmo com aquela visão do Paraíso: A calcinha branca da Regininha!

Assim os dias que se sucederam foram todos de novas descobertas...

Lá no “fumeiro” , onde a garotada se escondia no matinho pra fumar o assunto era só um: A cor da calcinha que cada garoto viu!

Experientes, já vividos com mais de uma semana de malandragens, resolveram partir para conquistas mais significativas: Ver calcinhas de professoras!

A professora de música era linda.

Passava na cidade um filme chamado Sissi, com uma atriz alemã de nome Romy Schneider que era belíssima e todos estavam apaixonados por ela, tanto que os banheiros faziam filas durante os intervalos de aulas... Coitados dos Sabiás !

Todos achavam que a professora de música era idêntica a Romy Schneider...

A Professora de Música


Romy Schneider - A paixão da garotada
Os garotos combinaram no fumeiro que a próxima vitima seria a professora e, antecipadamente, iniciaram uma cerimônia de “sapecar o sabiá” em grupo, em homenagem ao futuro acontecimento.

Mas, sempre tem um "estraga prazer" ! De repente,... Luizinho, um tipinho muito esquisitinho...

- Fessora: Os meninos aí do lado da Sra. não estão querendo aprender a solfejar não.... Eles estão é com o espelhinho no sapato só pra ver a sua calcinha....!

Filho da mãe daquele Luizinho que só gostava de bonecas...! Tinha que entregar todo mundo justo ali, naquela hora que estava acontecendo a cena mais linda do filme Sissi... e eu também estava vendo ????

Muito desapontada, aos prantos a professora olhou-nos com um sentimento de traída, sem conseguir pronunciar uma só palavra, soluçando, tremendo...

Conseguiu levantar a mão em direção a mim e disse:

- Você? Como pode fazer isso comigo? Justo você ?

O Diretor, o Servente, outros professores, alunos, ... um monte de gente veio correndo até a porta de nossa sala.

Estávamos ali, em pé, também em soluços, amedrontados, envergonhados...

Todos foram para a Diretoria. O Diretor chamou os pais. Veio até o Delegado de Polícia.

Os dias se passaram muito difíceis. Não se via a hora, cada dia, todo dia, de sair da escola e esquecer. Aquela professora não merecia aquele comportamento dos alunos, mas soube perdoar e foi a patrona da formatura.

Compus a letra do hino de despedida, chorando cada letra que imaginava, cada sentido, cada momento vivenciado, os momentos de alegrias, grandes alegrias, algumas decepções, algumas tristezas...

O Espelhinho Mágico, apesar de tudo, continua comigo em meus pertences. Há quem pergunte o que faço com esse objeto que ninguém conhece mais...

Não penteio mais meus cabelos com ele... Apenas tenho olhado, há muito tempo, desde aquela época, o olhar amadurecido, às vezes endurecido, modificado, ofuscado, saudoso.

Cada vez que olho esse espelho, viajo no tempo, pelo passado e futuro e sempre vejo aquela linda princesa – mais linda que Sissi, olhando-me com ternura, com um sorriso tão meigo e me perdoando por entender o instinto desprovido da razão que tomou conta por um inesquecível momento.

Não sei onde está a professora. Dizem que já partiu e ensina música aos Anjos.

Eu sei que em breve também vou pegar essa nave espacial e estarei novamente diante dela porque eu preciso devolver o caderninho de notas musicais que ela me emprestou e que guardei com todo amor e carinho todos esses anos... e também o Espelhinho, onde eu colei a sua foto.


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