domingo, 19 de janeiro de 2014

O POSTE DE PIRÚ


Havia um Bar onde os homens daquela cidade encontravam-se para o rotineiro “happy hour” ao final de toda tarde e de seus trabalhos !.
.
A cidade, naquela época, com quase 5 mil habitantes, era um lugarejo sem outras atrações a não ser um acanhado cinema, a praça da Igreja, alguns botequins de “cachaça “e o Bar do Seu Kalichman onde também havia uma pista de bocha... E era lá mesmo que Pirú ia todos os finais de tarde até o fechamento por volta das 10 horas da noite.
.
Era a “moda” tomar conhaque, entre um gole e outro de pinga... E as piadas corriam soltas, alguns solando violão  – abismo de rosas, ou outras que os “já embriagados” pela “tar da marvada” cantavam desafinadamente tentando um ser mais “tenor” que o outro. Havia até discussão e quase briga por causa de quem desafinava mais que o outro...
.
- Você não sabe cantar,... só desafina...
- Eu não ! Eu sei cantar sim,... você é que não sabe nada seu...
- Olha lá o que vai falar seu...
- Seu, o quê ?
.
E a discussão parava para mais um gole e continuava após alguns outros,... mas nunca houve briga de verdade e, no dia seguinte, comentavam os desequilíbrios daqueles “Senhores de Família” do  Bar do Kalichman. ! Piru sempre saía cambaleando.
.
Seu nome era Pedro e tinha esse apelido, Pirú, devido a sua timidez e porque sendo da pele muito branca, sempre ficava muito vermelho quando ia conversar com as pessoas. Muito tímido, muito tímido...
.
Era solteiro e apaixonado por Dona Cidinha, a professorinha mais charmosa da cidade. Mas  nunca teve coragem de se declarar diretamente a ela.
.
Dona Cidinha também era moça de boa família, muito recatada e também muito tímida. Embora todos da cidade achassem que eles se gostavam e que acabariam se casando, ...
.

 

Mas eis que um certo dia apareceu um homem elegante, forte, objetivo e decidido que era Oficial da Polícia Rodoviária e ela acabou se casando com ele. Coitado do Piru... !
.
No final daqueles Happy Hour, que naqueles tempos chamavam de “último gole” Piru saía tarde do Kalichman e ia logo abraçar o poste... e dar uma “desaguada ou uma despingada ! ”...
.
Naquela época os postes ou eram de troncos de árvores, desde o inicio de 1900 ou mais modernos e de ferro dos anos 40... E aquele poste do Piru, era um pretinho, bem enferrujado.
.
Piru abraçava o “Poste do Piru” e se declarava, pensando em Dona Cidinha, beijando, acariciando e “desaguando” no  pobre do coitado do poste que ficava ainda mais enferrujado por causa do ácido úrico de sua urina...
.
Certa vez, muito tempo depois de tanto se declarar, Piru abraçou o “neguinho”, como carinhosamente o tratava, com força e decisão... O Poste do Piru estava com um fio desencapado e, também por causa da garoa, estava eletrificado... e... PUUUMMM....! Lá foi o Piru jogado longe com um choque que quase o fez morrer !
.
- Ah é assim que você demonstra o seu amor ? Eu tantos anos aqui me declarando...
.
Os companheiros da cachaça não se contiveram de tanto rir da desgraça do Piru e logo foram dizendo:
.
- Aí, Piru... aí, Piru... tua sina vai ser mesmo se casar com um poste ou trabalhar na Força e Luz porque a tua querida Dona Cidinha não vai querer receber suas “despingadas” e muito menos sentir o “doce aroma da amargosa ! “
.
A partir daquela noite, Piru nunca mais voltou ao Bar do  Seu Kalichman. Pediu transferência do Banco onde trabalhava e mudou-se para outra cidade vizinha...
.
Dona Cidinha, dizem, casou-se e foi feliz...
.
Sobre Piru, não se sabe mais dizer de seu paradeiro. Mas,... lá naquela cidadezinha as pessoas até hoje sempre lembram dele e contam até para seus netos sobre as façanhas de Pirú e o Poste do Pirú !.
.
E no lugar onde havia o POSTE DO PIRU, hoje tem um novo Poste Padrão da Cia. de Força e Luz com uma placa em homenagem ao Piru, o herói de nossa história, com os seguintes dizeres:
.
“ POSTE DO PIRU que quase morreu de amor sem nunca se declarar !”
.
Musica:  ABISMO DE ROSAS
INTÉRPRETE: DILERMANDO  REIS
COMPOSITOR:  CANHOTO (AMÉRICO JACOMINO)
.
Raul Neves de  Abreu
24 / 05 /2013

Um comentário:

  1. Oi Raul, tudo bem !! Gostei do seu conto !! Só não sei até onde vale à pena passar a vida pensando em "alguém", muitas vezes, a gente nem gosta tanto, apenas se "acostumou a gostar" !!
    Amado amigo, saindo fora do conto, por acaso, sabe onde encontro CD ou mesmo na internet, "Luar do Sertão" com o Dilermano Reis ?? uma época revirei São Paulo, tentando encontrar e nada !! Perdoe-me, a demora pela visita ao seu blog. Parabéns, divulgue mais !! beijos Beth

    ResponderExcluir